Amós era um homem simples, de origem rural, que viveu por volta de meados do século VIII a.C. Sua profissão era a de pastor de ovelhas, boiadeiro e colhedor de sicômoros (um tipo de figo). Seu período de profecia situa-se entre os reinados de Uzias, rei de Judá (Reino do Sul), e Jeroboão II, rei de Israel (Reino do Norte). Amós vivia na cidade de Tecoa, uma aldeia localizada a aproximadamente 16 km ao sul de Jerusalém, 9 km de Belém e 20 km a oeste do Mar Morto, no reino de Judá. O nome Amós significa “carregador de fardos”, do hebraico ‘amos’. Seu chamado ocorreu para profetizar no reino de Jeroboão, em Israel.
Naquele período, havia paz entre Judá e Israel. O rei havia restaurado as fronteiras, conforme profetizado por Jonas (2Rs 14:25). A mensagem de Amós denunciou a condição social (Am 2:6,7), moral (Am 2:7,8) e religiosa (Am 2:8-12) da nação. Amós viveu em um tempo em que a ganância e o dinheiro falavam mais alto: os ricos buscavam acumular ainda mais, a imoralidade atingia níveis extremos, a perversão religiosa era comum e os fiéis a Deus eram ridicularizados.
O próprio profeta descreve sua origem com as palavras: “Eu não sou profeta, nem discípulo de profeta, mas boiadeiro e colhedor de sicômoros” (Am 7:14). No versículo seguinte, ele narra seu chamado de forma direta: “Mas o Senhor me tirou de após o gado e o Senhor me disse: Vai e profetiza ao meu povo de Israel” (Am 7:15). Assim, Amós não poderia ser considerado um profeta de profissão; fica claro, porém, que foi Deus quem o chamou para exercer o ofício profético.
Sobre o que fala o Livro de Amós?
Falando do Livro de Amós, podemos apresentar um breve entendimento sobre os capítulos de sua obra. Os capítulos 1 e 2 trazem uma mensagem às nações e a Israel. No início, aparecem acusações dirigidas aos vizinhos de Israel, mas todos os elementos convergem para o verdadeiro centro: Israel. A acusação contra o povo é que os ricos ignoravam os pobres, permitindo que estes fossem vendidos para quitar dívidas sem sequer passar por um julgamento. Amós declara que Deus não toleraria essas atitudes, lembrando que momentos antes Deus havia resgatado Israel.
Nos capítulos 3 a 6, encontramos a mensagem dirigida a Israel e aos seus líderes, advertindo sobre o que aconteceria caso não houvesse mudança. Os primeiros versículos explicam a intenção divina: “Eu escolhi você, Israel, entre todas as famílias da terra, e é por isso que vou castigá-los por todo o seu pecado” (Am 3:2). Israel sempre teve grande importância e responsabilidade, mas, pelos seus erros, sofreria igualmente grandes consequências. Amós expõe de forma constante a conduta dos ricos e dos líderes, que ignoravam o próximo necessitado. Um dos trechos em que o profeta indica o que o povo deveria fazer é: “Deixe a justiça fluir como as águas de uma enchente e a honestidade como um rio que nunca acaba...” (Am 5:24). A palavra “justiça” refere-se à correção das ações injustas, enquanto “honestidade” se relaciona à equidade, apesar das diferenças sociais.
As acusações de Amós também se dirigiam às práticas idólatras. Israel acumulava deuses estrangeiros (deuses associados ao sexo, à guerra e ao clima), o que tornava o povo imoral, pois não eram o Deus de Israel. Em outros trechos, o profeta alerta que a busca pelo Deus verdadeiro era essencial para a sobrevivência do povo, pois somente com Deus a vida seria mais justa e íntegra para todos. Amós ainda advertiu que uma nação poderosa viria para conquistar e destruir as cidades. E, quarenta anos depois, isso se cumpriu com o Império Assírio.
Nos capítulos finais, de 7 a 9, são apresentadas visões de Amós. Esses capítulos funcionam como representações simbólicas do Dia do Senhor. Entre suas visões, Amós vê Israel devastado por um enxame de gafanhotos, depois consumido por um grande incêndio e, em seguida, representado por frutas podres. Por fim, vê Deus golpear o grande templo de Israel em Betel, destruindo-o completamente. No entanto, no último parágrafo, surge um sinal de esperança: Amós afirma que Israel estará em ruínas, mas Deus, um dia, restaurará a casa de Davi.
Assim, o livro conclui explorando a relação entre a justiça e a misericórdia divina.
O que podemos entender com a leitura de Amós 7:7-8?
“Mostrou-me também isto: Eis que o Senhor estava sobre muro levantado a prumo, e tinha um prumo na mão. O Senhor me disse: Que vês tu, Amós? Respondi: Um prumo. Então me disse o Senhor: Eis que porei um prumo no meio do meu povo de Israel e jamais passarei por ele.” (Am 7:7,8)
Conforme as palavras de Amós, Deus declara que colocará um prumo no meio do povo de Israel como padrão de justiça e retidão, indicando o julgamento que viria por causa da injustiça, do desvio e da infidelidade do povo. Uma vez que a nação não estivesse à altura do padrão divino, não haveria mais perdão ou suspensão do juízo.
O prumo é uma ferramenta usada pelos construtores para verificar a retidão. Ao utilizar essa imagem, fica nítido que o povo de Israel estava torto, desalinhado e imperfeito diante do olhar divino. Quando Deus afirma “... e jamais passarei por ele.”, entende-se que não haveria mais tolerância; o julgamento seria definitivo, e a punição recairia sobre todo o pecado, a injustiça e a infidelidade de Israel.
Trazendo esse simbolismo para a vida maçônica, podemos observar que, na marcha do grau, quando nos desviamos do caminho, devemos retornar a ele e seguir adiante para alcançarmos o destino correto. Assim como na visão de Amós, em que Deus condena seu povo e depois o reergue, os ensinamentos maçônicos também nos conduzem pela correção, pelo aprimoramento e pela reconstrução interior.
Qual a relação do Grau com esta passagem?
No Livro de Amós, o prumo é apresentado como o instrumento de Deus para julgar a retidão do Seu povo. Para o maçom, o prumo é o instrumento que deve orientar suas próprias ações e sua obra de vida, tornando-se o símbolo central da orientação moral no grau de Companheiro Maçom.
Ao refletir sobre a passagem de Amós, diferentes vozes trouxeram contribuições que enriquecem o entendimento simbólico do prumo no contexto maçônico.
Uma das perspectivas mais maduras destacou que o Livro de Amós trata essencialmente de justiça social. Para essa visão, Deus não aparece como um castigador impulsivo, mas como um pai que alerta repetidas vezes antes de corrigir. O prumo, nessa leitura, revela que a retidão estava perdida entre aqueles que deveriam promovê-la, e sua presença simboliza a necessidade de reconstruir uma sociedade justa, sob pena de tudo desmoronar. Essa reflexão aproximou ainda mais o símbolo construtivo do prumo de sua função no grau de Companheiro, onde ele representa o cuidado e a responsabilidade no acabamento da obra.
Outra contribuição lembrou que Amós não veio de uma linhagem poderosa, mas de um povo simples, escolhido para anunciar verdades duras. O diálogo entre Deus e o profeta, citado na abertura do grau, foi interpretado como uma conversa carregada de tristeza diante dos desvios do povo. O prumo, nesse sentido, não é um instrumento de destruição, mas de correção: a tentativa divina de endireitar aquilo que já havia se afastado demais. A reflexão segue ainda para o mundo atual, destacando que tudo o que se aprende dentro das paredes do templo deve ser levado ao mundo profano. Caso contrário, o maçom se afasta de sua própria razão de ser.
Também surgiu a leitura de que o prumo, no texto de Amós, ultrapassa a metáfora da construção. Ele é símbolo da justiça aplicada de modo absoluto, sem parcialidade. O fato de o prumo ser colocado “no meio”, no coração de Israel, indica que o julgamento anunciado não atingiria apenas uma parte, mas toda a nação. Essa perspectiva ressalta que Deus já não tolerava a perversidade, e que a espada mencionada logo depois da visão reforça a seriedade do desvio espiritual em que o povo havia caído.
Por fim, uma última reflexão comparou o muro da visão de Amós ao próprio povo de Israel. Se o muro estava torto, o prumo revelaria o desalinhamento. Os princípios divinos eram essa linha vertical perfeita, e, embora houvesse prosperidade material, o espírito estava pobre. Surgiu ainda a pergunta que ecoa até hoje: em meio às nossas rotinas, urgências e distrações, não estaríamos também precisando alinhar nossas vidas ao prumo da verdade?
Conclusão
Conclui-se que Amós veio de um povo humilde e escolhido por Deus, assim como os maçons, que antes de iniciarem são escolhidos por serem livres e de bons costumes. Ao ingressarem, apresentam-se desprovidos de metais e vaidades, lembrando que todos devem estar nivelados. Assim como Amós deixou tudo para trás para anunciar a palavra divina, o ingresso na maçonaria também carrega a responsabilidade de levar ao mundo profano os ensinamentos adquiridos no templo.
A referência à justiça por meio do prumo permite uma clara alusão à marcha do grau. É necessário caminhar em linha reta, conforme ensinado nos primeiros passos. Mesmo quando há desvios de percurso por curiosidade ou fraqueza, os ensinamentos apontam para o retorno ao caminho correto e para a continuidade da jornada dentro da retidão. Há, contudo, certa tolerância no processo. A educação recebida nos primeiros anos de vida, construída no lar e no convívio familiar, permanece como fundamento. Assim como quem aprende a andar jamais esquece, os valores básicos acompanhados desde a infância moldam a consciência ao longo da vida.
Não cabe ao maçom julgar, mas contribuir para salvar a nação, mesmo por meio de pequenos atos. Entretanto, quando certos limites são ultrapassados, as consequências tornam-se inevitáveis.
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A∴R∴L∴S∴ Gralha Azul, nº 2514 - Benfeitora da Ordem
REAA - GOB-PR

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