O 1º grau é o alicerce da filosofia da maçonaria simbólica, sendo um resumo da moral maçônica de aperfeiçoamento humano. Compete ao Aprendiz Maçom, o trabalho de desbastar a P∴ B∴, desprendendo-se dos defeitos e fanatismos que o impedem de participar da construção da moral da Humanidade, que é a verdadeira obra da Maçonaria.
O caminho que o Aprendiz deve trilhar para atingir o domínio de si mesmo é representado na Maçonaria por elementos de alto significado simbólico. Através do estudo destes elementos e do trabalho sobre a P∴ B∴, o Aprendiz poderá progredir na Grande Obra em que intentou ao adentrar os umbrais do templo. A Grande Obra, neste caso, é a árdua tarefa de aprimoramento moral, intelectual e espiritual do maçom, esteada na transformação do homem em seu estado natural para um estado de virtude e conhecimento, permitindo que ele se torne um membro útil para a sociedade e para a Ordem Maçônica.
Neste trabalho de aperfeiçoamento moral, o Aprendiz Maçom se utiliza do Maço e do Cinzel. Essas ferramentas o ajudam a elidir as asperezas da massa informe a que chamamos P∴ B∴. O Maço, ferramenta de madeira ou ferro, munida de cabo e similar a um martelo, é utilizado na carpintaria e sobretudo na cantaria para golpear ou percutir. Na Maçonaria, sua conotação é simbólica e representa a razão como guia da vontade pela qual, com energia e decisão, podemos vencer os obstáculos que surgem em nossas vidas. O Cinzel, por sua vez, é uma ferramenta manual de corte com aresta afiada na ponta, utilizada para desbastar e esculpir materiais duros. Na Maçonaria, representa a inteligência, o conhecimento e o discernimento necessários para identificarmos as imperfeições e as falhas do nosso caráter. Portanto, simbolicamente o Maço e o Cinzel, juntos, formam a metáfora utilizada no 1º grau, na qual o desbaste da P∴ B∴ (o próprio maçom) deve ser realizado com o Maço (a vontade de melhorar a si mesmo) e o Cinzel (a inteligência para saber o que melhorar e como fazê-lo). O propósito do seu trabalho deve ser transformá-la em P∴ C∴ e, se pela fé e pelo esforço atingir este objetivo, poderá dispor de outras ferramentas e utensílios que igualmente o ajudarão no seu progresso maçônico.
A P∴ B∴, além de representar o Aprendiz, é uma das chamadas Joias Fixas de uma L∴ maçônica do R∴E∴A∴A∴. Juntamente com a P∴ C∴ e a Pranch∴ da L∴, esse conjunto é assim chamado porque permanecem imóveis em L∴, configurando-se como um referencial de valores ao alcance da percepção de todos os maçons. A P∴ C∴ é o material perfeitamente lavrado. Possui faces perfeitamente planas, ângulos retos e polimento, permitindo que se encaixe perfeitamente em uma estrutura maior sem a necessidade de argamassa para disfarçar erros. Representa o homem que alcançou o equilíbrio moral e intelectual, tornando-se uma unidade útil e estável para o edifício social do qual faz parte. Por último, mas não menos importante, temos a Pranch∴ da L∴, que, simbolicamente, serve para o Mestre desenhar e traçar o plano de trabalho para os Aprendizes e os Companheiros.
A reflexão sobre estes significados, nos traz uma constatação filosófica muito interessante. Mesmo que o Maço e o Cinzel sejam, por definição, as ferramentas do Aprendiz, o maçom deverá fazer uso delas durante toda sua caminhada, pois o fim de seu decurso no 1º grau não significa que o trabalho de desbaste da P∴ B∴ acabou, tampouco que ela tenha se tornado P∴ C∴. Afinal de contas, somos humanos e é da nossa natureza sermos imperfeitos. Por isso, sempre haverá uma aresta a lavrar... E esta é a palavra-chave neste contexto: lavrar. O objetivo do Aprendiz é desbastar a P∴ B∴ para transformá-la em P∴ C∴. Porém, a P∴ C∴ representa um estado de perfeição que não podemos atingir, justamente por sermos imperfeitos. Logo, esse é o mote de todo maçom. É conveniente, então, pensarmos que deve existir um estado de transição, um estado intermediário.
A P∴ B∴ é o material retirado da jazida, no estado da natureza. Portanto, depois que o trabalho de desbaste é iniciado, ela deixa de ser um bloco informe, porém ainda não é o material perfeitamente lavrado. Podemos dizer então que temos uma pedra talhada, o estágio de transição. A pedra talhada é o bloco que já começou a ser trabalhado, mas ainda não atingiu sua forma final perfeita. É o estado em que as arestas mais grosseiras foram removidas com o auxílio do Maço e do Cinzel, mas a pedra ainda não possui as faces perfeitamente lisas ou o esquadro exato para integrar a construção.
Na escala iniciática, estamos falando, então, do Companheiro Maçom, que simbolicamente já possui domínio de suas paixões e vícios, mas continua em processo de aperfeiçoamento. Seu objetivo é transformar a pedra talhada na pedra lavrada a que chamamos de P∴ C∴. Por definição, o trabalho constante de lavrar significa esculpir com precisão e polir. Sob esta ótica, podemos apresentar um modo diferente de dizer quais são os objetivos do Aprendiz e do Companheiro: o Aprendiz tem o objetivo de desbastar a P∴ B∴ até um estágio em que deixe de ser um bloco informe e passe a ter contornos definidos (a pedra talhada), marcando o fim do estágio bruto e o início do trabalho de precisão do Companheiro, a quem caberá a tarefa subsequente de lavrá-la com o rigor da ciência e da arte, buscando a geometria perfeita da P∴ C∴.
O significado das ferramentas simbólicas utilizadas pelo Aprendiz neste trabalho de aperfeiçoamento moral, nos remete aos quatro pilares morais da filosofia clássica, mais conhecidas como Virtudes Cardeais. Essas virtudes são valores morais fundamentais e são consideradas o eixo de muitas disposições éticas. As quatro Virtudes Cardeais são a Prudência, a Justiça, a Coragem e a Temperança.
A Prudência é a capacidade de julgar bem e escolher os meios adequados para agir bem em cada situação.
A Justiça é a disposição constante de dar a cada um o que lhe é devido, orientando relações pessoais e sociais.
A Coragem (ou Fortaleza) é a firmeza para enfrentar dificuldades, riscos e sofrimentos e a constância na busca do bem, ajudando a superar medos e resistir a tentações.
A Temperança é a moderação dos desejos e prazeres, mantendo o autocontrole e a medida, assegurando o domínio da vontade sobre os instintos.
Isto posto, o Maço simboliza a Coragem que impulsiona a vontade com ânimo para superar vícios, como a preguiça e o desânimo. O Cinzel reflete a Temperança e a Justiça, guiando o discernimento para identificar excessos impulsivos e agir com equilíbrio moral. Juntas, preparam o Aprendiz para a Prudência, virtude que orienta todas as demais ao longo da jornada.
Percebe-se, portanto, que a P∴ C∴ não é um fim isolado, mas é uma peça destinada a integrar-se ao edifício social chamado Humanidade. Contudo, sem argamassa, por mais perfeitos que sejam os blocos, não haverá coesão nem estabilidade o suficiente para garantir a solidez da construção. No simbolismo maçônico, essa argamassa é a Fraternidade. Ela é o vínculo que une os irmãos, harmoniza as diferenças, sustenta o trabalho comum e dá sentido coletivo ao aperfeiçoamento individual. É por isso que a Fraternidade ocupa lugar central na Maçonaria e é por isso, também, que o grau de Aprendiz é consagrado à Fraternidade. Sem ela, as pedras estariam apenas justapostas, mas com ela ergue-se verdadeiramente o Templo da Humanidade.
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A∴R∴L∴S∴ Gralha Azul, nº 2514 - Benfeitora da Ordem
Or∴ São José dos Pinhais - R∴E∴A∴A∴/GOB

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