No Rito Escocês Antigo e Aceito (REAA), o templo onde acontecem as sessões maçônicas é organizado de forma simbólica, com cada parte representando algo importante na jornada do maçom. Um dos elementos mais marcantes desse espaço são as colunas zodiacais, que são representações dos doze signos do zodíaco e têm um papel simbólico fundamental, especialmente na trajetória do iniciado dentro da Ordem.
Essas colunas não estão ali por decoração, nem servem para astrologia ou horóscopo. Elas representam um caminho simbólico que o iniciado percorre ao longo dos graus maçônicos. Esse caminho é inspirado no movimento aparente do Sol no céu ao longo do ano, como ele é visto no hemisfério Norte, que é onde nasceu o R∴E∴A∴A∴. Por isso, tudo no templo segue essa lógica solar: as estações do ano, os pontos cardeais e até a posição dos obreiros.
As doze colunas zodiacais são divididas em dois lados do templo. Seis delas ficam na parede do lado Norte: Áries, Touro, Gêmeos, Câncer, Leão e Virgem. As outras seis estão na parede do lado Sul: Libra, Escorpião, Sagitário, Capricórnio, Aquário e Peixes. No lado Norte, as colunas começam perto da entrada do templo (o Ocidente) e vão até o limite entre o Oriente e o Ocidente, onde está a balaustrada. No lado Sul, a sequência é invertida: começa próximo à balaustrada e segue para o Ocidente. Essa disposição segue o percurso anual do Sol e reflete a ideia de nascimento, amadurecimento, envelhecimento e morte, uma metáfora para a própria vida do maçom dentro da Ordem.
![]() |
| Imagem das colunas zodiacais do tempo da A∴R∴L∴S∴ Gralha Azul, Or∴ de São José dos Pinhais, PR |
No início de sua caminhada, o novo maçom recebe o grau de Aprendiz. Nesse grau, ele deve simbolicamente ocupar o espaço mais distante da Luz, que é o começo da Coluna do Norte, junto ao signo de Áries e próximo ao 1º Vigilante. Áries representa a primavera no hemisfério Norte, ou seja, o início de um novo ciclo, a saída da escuridão (inverno), o nascimento. Portanto, o local onde o Aprendiz recém iniciado deve se sentar tem uma lógica simbólica bem clara: é o ponto de partida da sua jornada de aprendizado.
Segundo o Ritual do Grau de Aprendiz do GOB (edição 2024), o local correto do novo Aprendiz, no dia da sua iniciação, é justamente esse: ao lado da Coluna de Áries, próximo ao 1º Vigilante. Esse ponto representa o nascimento simbólico do iniciado e marca o começo da sua caminhada pela Maçonaria. É por isso que não faz sentido colocar o Aprendiz recém iniciado perto da balaustrada do Oriente, que é onde fica a Coluna de Virgem, o último estágio da jornada do Aprendiz. Fazer isso é como colocar um aluno no fim do curso no seu primeiro dia de aula, é um erro que vai contra toda a lógica do rito.
Essa caminhada simbólica continua com o Aprendiz passando por cada uma das colunas do Norte, até chegar à Coluna de Virgem, perto do Oriente. Nesse ponto, ele está pronto para atravessar o templo e iniciar a próxima fase da sua jornada: o grau de Companheiro, que começa com a Coluna de Libra, já no lado Sul. Assim, o ciclo segue: o Companheiro percorre as colunas do outono e o Mestre, as colunas do inverno. Cada estação representa uma etapa da vida: nascimento, crescimento, amadurecimento e finalização. E tudo isso está representado nas paredes do templo.
Outro ponto importante é entender que as chamadas “colunas do Norte e do Sul” não são colunas físicas no templo. Elas são apenas nomes dados aos espaços das paredes onde ficam as colunas zodiacais. Quando se fala em “topo da Coluna do Norte”, isso se refere à parede inteira do lado Norte, desde a entrada até o Oriente. Por isso, o Aprendiz mais novo deve ficar no início dessa parede, perto da Coluna de Áries. Ele só irá avançar ao longo dessa parede à medida que for progredindo no grau e no tempo de Loja.
Esse ciclo de nascimento, crescimento, colheita e finalização, tão presente na disposição das colunas zodiacais, tem um paralelo direto com antigos cultos solares e agrícolas da Antiguidade. Um exemplo importante são os Mistérios de Elêusis, celebrados na Grécia em homenagem às deusas Deméter e Perséfone. A história de Perséfone, raptada por Hades e levada ao mundo inferior, simbolizava o período de morte da natureza (outono e inverno). Seu retorno à mãe marcava a primavera e o renascimento da vida. Esses ritos, que envolviam morte simbólica e renascimento espiritual, ensinavam aos iniciados que a vida seguia ciclos naturais que precisavam ser compreendidos e aceitos. O neófito, como Perséfone, descia simbolicamente ao “mundo inferior” da ignorância, para depois emergir renovado pela luz do conhecimento. Esse mesmo princípio orienta a jornada do maçom ao longo das colunas zodiacais.
No mundo romano, os Mistérios de Ceres, equivalente latino de Deméter, reforçavam o mesmo tema: a morte simbólica da semente no solo e seu renascimento como planta representavam o ciclo da vida espiritual. Na Maçonaria, o iniciado também é visto como uma semente que precisa morrer para sua condição profana, renascer na primavera iniciática e crescer ao longo das estações até alcançar sua plenitude. Por isso, os símbolos presentes na Câmara de Reflexão, como o pão (feito do trigo de Ceres), o crânio e os elementos alquímicos, dialogam com essa tradição ancestral. Eles apontam que o caminho do maçom é uma continuidade desse antigo aprendizado: observar a natureza, reconhecer os ritmos da vida e trabalhar sua própria transformação ao longo dessas etapas.
É importante destacar que o caminho simbólico representado pelas colunas zodiacais tem impacto direto na forma como o templo é organizado e nos lugares ocupados pelos obreiros durante os trabalhos. Cada espaço dentro do templo foi pensado para representar uma fase da jornada iniciática, e quando esse planejamento é ignorado ou mal interpretado, perde-se a lógica do rito. Por isso, colocar o Aprendiz recém iniciado longe da Coluna de Áries e próximo à balaustrada do Oriente é mais do que um simples erro prático, é um desvio do sentido simbólico da iniciação.
Infelizmente, esse tipo de erro ainda ocorre com frequência. Muitas vezes, por desconhecimento ou por repetição de práticas herdadas de forma acrítica, o novo Aprendiz é conduzido diretamente ao final da Coluna do Norte, próximo à Coluna de Virgem, onde deveria estar sentado um Aprendiz já avançado em sua jornada. Essa inversão quebra a narrativa simbólica do rito, que é construída com base na progressão natural das estações e no desenvolvimento pessoal do iniciado. O correto, como já vimos, é que o recém iniciado ocupe a posição inicial da Coluna do Norte, junto ao Primeiro Vigilante, marcando o início da sua trajetória.
Vale também lembrar que, dentro do REAA, o templo é uma representação simbólica do mundo, dividido em seus quatro pontos cardeais. O Oriente representa a Luz, o nascimento do Sol e a fonte do conhecimento. O Ocidente, por outro lado, representa o fim da jornada, o mundo profano. A Coluna do Norte é onde o Sol inicia sua elevação no céu, e é por isso que ela abriga os Aprendizes. O Sul é onde o Sol se encontra em seu zênite, iluminando plenamente a Terra, e por isso é destinado aos Companheiros e Mestres. Essa lógica geográfica e astronômica está no centro da simbologia do templo e deve ser respeitada.
Além disso, quando se compreende que o REAA é um rito solar, fica fácil entender por que a jornada simbólica do maçom acompanha o movimento do Sol pelas estações do ano. Cada grau corresponde a um estágio dessa jornada: o Aprendiz percorre a primavera e o verão, o Companheiro representa o outono, e o Mestre, o inverno. Essa divisão não é arbitrária. Ela segue a lógica do crescimento natural: o Aprendiz é como uma planta que brota na primavera, cresce durante o verão e começa a produzir frutos no outono, quando se torna Companheiro. O inverno representa o encerramento do ciclo, a morte simbólica do iniciado, e sua preparação para renascer, agora como Mestre, com nova compreensão.
Quando bem compreendido, esse percurso ajuda o maçom a dar sentido à sua presença em Loja. Ele passa a entender que cada posição no templo, cada símbolo e cada etapa do ritual estão conectados a um processo maior de crescimento interior. A jornada iniciática é uma experiência estruturada que segue uma lógica bem definida. Respeitar essa estrutura é essencial para que o processo de transformação pessoal seja verdadeiro.
Do mesmo modo, a disposição das colunas zodiacais é uma referência visual e didática que ajuda a localizar o maçom dentro da sua jornada. Quando o obreiro olha para o templo e reconhece sua posição simbólica, seja como Aprendiz junto a Touro, ou como Companheiro próximo a Escorpião, ele entende em que fase do caminho está, o que já percorreu e o que ainda precisa conquistar. Isso dá um sentido real à sua progressão na Ordem, tornando o aprendizado mais concreto e pessoal.
Essas colunas também funcionam como um lembrete constante de que o processo iniciático é contínuo. A jornada não termina com a passagem de grau. Assim como o ciclo solar recomeça a cada primavera, o maçom também deve renovar-se constantemente, buscar novos conhecimentos e reavaliar seu progresso. A caminhada espiritual e moral é permanente. O verdadeiro Mestre é aquele que reconhece que está sempre em construção.
Esse entendimento mais profundo do templo e de seus símbolos depende diretamente do estudo. Em muitos casos, erros de interpretação ou práticas incoerentes dentro das Lojas decorrem da falta de leitura dos rituais oficiais e da repetição de costumes antigos que foram sendo transmitidos sem análise crítica. A Maçonaria tem, por natureza, uma tradição de oralidade e prática, mas isso não exclui a necessidade de consultar os documentos rituais e simbólicos disponíveis, especialmente aqueles produzidos e autorizados pelas Potências Regulares.
O ritual do REAA não é um texto aberto à livre adaptação ou à interpretação meramente subjetiva. Ele segue uma estrutura lógica, baseada em elementos filosóficos, históricos e simbólicos muito bem definidos. Quando a prática ritual se afasta dessa estrutura, corre-se o risco de esvaziar o sentido daquilo que é feito em Loja. A leitura simbólica do templo deve ser coerente com essa estrutura, ou todo o processo iniciático perde força.
O Aprendiz que ocupa seu lugar próximo ao signo de Áries está sendo inserido, ainda que silenciosamente, em uma narrativa maior que conecta sua experiência individual ao ciclo da natureza, à história da humanidade e aos mistérios espirituais mais antigos. Se ele for colocado fora desse ponto simbólico, não há apenas um deslocamento físico, mas uma quebra na coerência do rito. Pode parecer um detalhe pequeno, mas a força da Maçonaria está justamente na soma desses detalhes, que juntos formam um sistema consistente de valores, princípios e ensinamentos.
Além disso, quando os símbolos do templo são bem compreendidos, eles se tornam ferramentas de instrução visual. Um iniciado que observa as colunas zodiacais e entende sua disposição pode, sozinho, deduzir os princípios do rito e as etapas da jornada iniciática. Isso facilita o aprendizado e torna a experiência maçônica mais rica e significativa. É por isso que o templo deve ser tratado como um livro aberto, onde cada detalhe tem algo a ensinar.
Esse processo exige uma mudança de mentalidade. Ao invés de ver o rito como algo meramente cerimonial, os obreiros devem encará-lo como um sistema pedagógico, onde tudo tem um porquê. As colunas zodiacais, os pontos cardeais, os símbolos no chão e nas paredes, a posição dos vigilantes... Tudo isso foi pensado para formar um conjunto coerente. Quando esse conjunto é bem utilizado, a Loja se torna um verdadeiro espaço de transformação interior.
Cabe também ao corpo diretivo da Loja, especialmente aos Vigilantes, orientar os obreiros mais novos sobre esses pontos. Não basta apenas distribuir funções ou organizar os trabalhos administrativos. É dever dos oficiais transmitir o sentido simbólico de cada prática, para que os novos maçons não apenas repitam gestos, mas compreendam o que estão fazendo. Isso inclui, por exemplo, explicar ao novo Aprendiz por que ele se senta ao lado da Coluna de Áries, e não próximo à balaustrada oriental.
A prática ritual precisa ser acompanhada de reflexão. Quando isso acontece, a Maçonaria cumpre seu papel original: transformar o homem profano em um homem consciente, responsável e espiritualizado. E isso começa nos primeiros passos do iniciado, desde o momento em que ele entra no templo pela primeira vez. A partir dali, cada detalhe importa.
Com tudo isso em mente, fica claro que a posição das colunas zodiacais no templo do REAA é uma parte essencial da estrutura pedagógica do rito. Elas guiam o iniciado em sua jornada, marcando as fases do seu desenvolvimento interior com base em um modelo natural — o ciclo solar — que é universal, lógico e facilmente compreendido.
Por isso, é fundamental que os obreiros mais experientes conheçam a fundo o que cada espaço e símbolo do templo representa. O estudo contínuo do ritual, das tradições e das instruções oficiais permite que a Loja funcione de maneira mais consciente e eficaz. Ao mesmo tempo, reforça o senso de pertencimento do iniciado, que reconhece no templo um verdadeiro mapa da sua jornada iniciática.
Em tempos em que muitos procuram respostas prontas e atalhos espirituais, a Maçonaria oferece um caminho diferente: uma jornada estruturada, cheia de etapas, em que cada símbolo tem sua função, e cada posição no templo, seu significado. Compreender e respeitar esse caminho é o primeiro passo para vivenciar a plenitude da experiência maçônica.
-------

Excelente abordagem, meu Irmão!!
ResponderExcluirObrigado, meu irmão!
ExcluirMuito bom Mano!
ResponderExcluirParabéns meu irmão!
ResponderExcluirTFA