Falar sobre tolerância parece, à primeira vista, algo simples. Afinal, quase todo mundo concorda que ela é importante. A palavra circula com facilidade em discursos, textos, debates e até em conversas cotidianas. Mas basta olhar com um pouco mais de atenção para perceber que tolerar, de fato, está longe de ser uma tarefa fácil.
A própria ideia de tolerância já carrega uma tensão interessante. Em geral, ela remete à disposição de aceitar no outro modos de pensar, agir e sentir diferentes dos nossos. Não se trata, necessariamente, de concordar, muito menos de admirar tudo aquilo que nos contraria. Trata-se, antes, de reconhecer que a convivência humana exige certa capacidade de suportar diferenças, frustrações, divergências e limites.
Essa noção aparece em definições mais comuns da palavra, mas também atravessa reflexões filosóficas importantes. Voltaire, por exemplo, via a tolerância como um traço essencial da humanidade, quase como uma exigência natural da vida em sociedade. Se todos somos falhos, frágeis e sujeitos ao erro, então talvez o mínimo que possamos oferecer uns aos outros seja justamente esse exercício de compreensão recíproca. Em vez da perseguição, do desprezo ou da hostilidade, a tolerância surgiria como uma forma de reconhecer a condição humana compartilhada.
John Locke, por sua vez, pensava a tolerância a partir das relações entre Estado e religião, estabelecendo nela um papel importante para a convivência civil. Já Jürgen Habermas, em uma perspectiva mais contemporânea, associa a tolerância a um processo de respeito recíproco, no qual diferentes pessoas convivem sem que uma visão precise esmagar a outra. Em comum, essas leituras mostram que tolerar não é simplesmente “deixar pra lá”, mas lidar de maneira civilizada com a diferença.
No plano das ideias, tudo isso parece bastante razoável. O problema começa quando saímos da teoria e entramos na vida real.
Viver em sociedade significa, o tempo todo, conviver com pessoas diferentes de nós. Cada indivíduo traz consigo crenças, opiniões, valores, hábitos, limites e expectativas particulares. Em um ambiente inevitavelmente heterogêneo, o conflito é parte da experiência humana, e muitas vezes surge por razões pequenas, banais, até tolas.
No dia a dia, as frustrações são constantes. Nem sempre nossas opiniões serão ouvidas como gostaríamos. Nem sempre nossos gostos serão respeitados. Nem sempre nossas ações receberão o reconhecimento que julgamos merecer. Em muitos casos, o que queremos simplesmente não acontece. E talvez seja justamente aí que a tolerância deixe de ser um conceito bonito e passe a se tornar uma prática difícil.
Ela começa em espaços muito comuns: dentro de casa, no trabalho, nas relações mais próximas. Há dias em que tudo parece fora do lugar e qualquer gesto alheio parece uma provocação. Nesses momentos, é fácil interpretar o comportamento dos outros a partir do nosso próprio incômodo. O problema é que, muitas vezes, o outro não está contra nós; nós é que estamos feridos, cansados ou frustrados demais para perceber isso.
No ambiente profissional, acontece algo parecido. Criamos expectativas sobre pessoas, posturas e resultados, e sofremos quando a realidade não corresponde àquilo que imaginamos. Esperamos que os outros tenham nossas convicções, nosso senso ético, nosso ritmo, nossas habilidades. Quando isso não acontece, a tendência é julgar rapidamente. A intolerância, nesse sentido, nasce com frequência de uma leitura excessivamente pessoal do mundo, como se o nosso modo de ser fosse a medida de todos os demais.
Talvez por isso a tolerância precise ser entendida menos como um discurso e mais como um hábito. Não um hábito passivo, mas uma disciplina interior que exige freio, escuta, humildade e, muitas vezes, uma revisão sincera do nosso próprio ego.
Quando essa reflexão é transportada para o ambiente maçônico, ela ganha ainda mais peso. Isso porque a tolerância não aparece apenas como uma virtude desejável, mas como um princípio fundamental. A própria Constituição do Grande Oriente do Brasil a apresenta como um princípio cardeal nas relações humanas, ligado ao respeito às convicções e à dignidade de cada pessoa.
Chamar a tolerância de princípio cardeal não é algo trivial. Significa reconhecê-la como elemento central, essencial, estruturante. Em outras palavras, não basta ao maçom admirar a tolerância em teoria; espera-se dele um compromisso concreto com sua prática.
Mas é justamente aqui que surge uma dificuldade importante. Ser tolerante no discurso é fácil. Difícil é sustentar essa postura na rotina, especialmente diante de situações que ferem nossas convicções, testam nossa paciência ou desafiam nossos valores. Há uma grande distância entre parecer tolerante e realmente ser.
Além disso, a tolerância não pode ser confundida com omissão. Esse talvez seja um dos pontos mais delicados do tema. Quando levada ao excesso, ela corre o risco de se transformar em condescendência. E, em certos casos, ser condescendente demais com erros recorrentes, desvios morais ou atitudes prejudiciais é negligência.
Essa distinção é importante porque nem tudo pode ser aceito em nome de uma convivência pacífica. Pequenas falhas do cotidiano costumam ser mais fáceis de relevar. Mas o que fazer quando certos comportamentos deixam de ser ocasionais e passam a comprometer princípios, relações e até o nome de uma instituição? O desafio está exatamente em encontrar o limite entre compreender e acobertar, entre ser paciente e ser permissivo.
No contexto maçônico, isso se torna ainda mais sensível. Se a tolerância é um fundamento da Ordem, ela também não pode servir de escudo para proteger atos incompatíveis com a ética. Tolerar o outro não significa blindar o erro do outro. Há situações em que o silêncio, longe de ser sinal de elevação, se aproxima perigosamente da cumplicidade.
Outro ponto que merece reflexão é o sectarismo. Em tese, posturas sectárias são incompatíveis com o espírito universalista da Maçonaria. No entanto, basta observar o comportamento humano, especialmente em tempos de redes sociais, para perceber o quanto a intolerância continua viva e, muitas vezes, bastante à vontade para se manifestar.
Hoje, opiniões divergentes frequentemente deixam de ser tratadas como diferenças legítimas e passam a ser vistas como ofensas pessoais, ameaças morais ou provas de inferioridade. O debate cede lugar ao ataque e a convicção se torna rigidez. E a defesa de uma ideia rapidamente escorrega para a incapacidade de admitir a existência da perspectiva do outro.
Esse problema, claro, não se restringe ao ambiente maçônico. Ele atravessa toda a sociedade. Vivemos em um tempo em que a intolerância parece estar sempre à espreita, alimentada pela pressa em julgar, pelo prazer de reagir e pela dificuldade crescente de escutar. As redes sociais apenas tornaram mais visível algo que já existia: a pouca disposição das pessoas para conviver com o contraditório.
No caso da Maçonaria, há ainda um agravante: além de precisar lidar com a intolerância em seu interior, ela também é alvo da intolerância vinda de fora. Ainda hoje, persistem fantasias, preconceitos e acusações absurdas, sustentadas por desinformação e obscurantismo. Isso mostra que a intolerância não nasce apenas do desacordo, mas também da ignorância.
Como tolerar o intolerante?
Talvez a pergunta mais difícil de todas seja justamente esta: como tolerar o intolerante?
Ela não tem resposta simples. Na verdade, talvez sua força esteja exatamente no desconforto que provoca. Porque, se a tolerância é um valor indispensável, o que fazer quando nos deparamos com atitudes que negam o próprio princípio da convivência respeitosa? Até que ponto tolerar a intolerância não seria, no fundo, ajudá-la a crescer?
Esse é um paradoxo real. Ser intolerante com a intolerância pode soar contraditório, mas, por outro lado, não enfrentá-la pode significar aceitá-la passivamente. E aceitar passivamente a intolerância é abrir espaço para que ela se normalize.
Nesse ponto, a reflexão exige maturidade. Nem tudo se resolve com dureza, assim como nem tudo se resolve com complacência. Há momentos em que a resposta mais responsável é justamente não se omitir. Repreender atitudes intolerantes, especialmente quando elas ferem princípios éticos e humanos básicos, não significa abandonar a tolerância. Pode significar, ao contrário, defendê-la em sua forma mais séria.
Talvez a verdadeira tolerância não seja a capacidade de aceitar qualquer coisa, mas a sabedoria de discernir o que pode ser acolhido, o que pode ser dialogado e o que precisa ser firmemente contestado.
No fim das contas, a tolerância parece menos um estado alcançado e mais um exercício permanente. Ela não se instala de uma vez por todas no caráter de alguém. Precisa ser cultivada, revisitada e praticada todos os dias, sobretudo quando seria mais fácil reagir com dureza, impaciência ou desprezo.
No mundo profano, ela torna a convivência possível. No ambiente maçônico, ela ganha estatuto de princípio e dever. Em ambos os casos, porém, continua sendo exigente. Pede vigilância sobre si mesmo, respeito pelo outro e discernimento para não transformar virtude em omissão.
Pensar sobre tolerância, portanto, não é apenas refletir sobre a maneira como tratamos os outros. É também encarar nossos próprios limites, nossas incoerências e nossa dificuldade de lidar com aquilo que nos contraria. Talvez por isso o tema continue tão atual, porque fala menos de uma ideia abstrata e mais de uma luta interior que nunca termina.
----------
Este texto é uma adaptação de uma brilhante peça de arquitetura elaborada pelo respeitável irmão Emerson Martins de Souza em 2019, intitulada Tolerância.
Or∴ São José dos Pinhais, PR
Comentários
Postar um comentário