Grande parte do cerimonial maçônico tem raízes nos antigos ritos religiosos, especialmente na tradição hebraica, adaptados às necessidades e contextos modernos. Dentro desse conjunto de práticas, a abertura do Livro da Lei (que no REAA é a Bíblia) simboliza o verdadeiro início dos trabalhos em Loja. Essa prática representa, de forma clara, a presença e autoridade da palavra do Grande Arquiteto do Universo nos trabalhos.
O uso de um Livro da Lei na Maçonaria foi formalizado em 1717, com a constituição da Grande Loja da Inglaterra. Naquela época, algumas lojas da região de Yorkshire, ao adotarem o Ritual de Emulação, passaram a abrir a Bíblia em qualquer página, sem a leitura de versículos específicos.
Mas tarde, a prática da leitura de versículos durante a abertura foi retomada por algumas Grandes Lojas norte-americanas, e, por influência delas, essa tradição foi incorporada ao Rito Escocês Antigo e Aceito no Brasil e outras obediências da América do Sul.
Loja do Aprendiz Maçom
Nas sessões de Aprendiz Maçom das Lojas do REAA filiadas ao Grande Oriente do Brasil, o Livro da Lei é aberto nos Cânticos de Romagem, mais precisamente no Salmo 133, atribuído ao Rei Davi.
Oh, quão bom e quão suave é que os irmãos vivam e união. É como o óleo precioso sobre a cabeça, que desce sobre a barba, a barba de Aarão, e que desce à orla de suas vestes; como o orvalho de Hermon, que desce sobre os montes do Sião: porque ali o Senhor ordena a benção e a vida para sempre.
Para compreendermos o significado desse salmo, é essencial entender o contexto histórico em que foi escrito.
Davi sucedeu Saul como rei dos hebreus em 1006 a.C. Durante seu reinado, Jerusalém foi conquistada dos cananeus e transformada na capital do reino unido de Israel. Com a união das doze tribos, Davi fortaleceu a identidade do povo israelita. Ele levou para Jerusalém a Arca da Aliança e organizou o serviço sacerdotal, nomeando os líderes religiosos. Além de ser um governante competente, Davi também era reconhecido como um poeta e salmista de grande inspiração.
Aarão, mencionado no salmo, foi irmão de Moisés e o primeiro sacerdote hebreu. É uma figura central na formação da ordem sacerdotal judaica.
O salmo começa com a expressão da alegria e da beleza que há na união fraternal: Quão bom e suave é que os irmãos vivam em união. Davi celebra a união do povo de Israel sob um único reino. Ele não fala de uma união superficial ou festiva, mas de um laço duradouro, profundo, verdadeiro. Para ilustrar essa ideia, Davi usa duas imagens simbólicas:
- O óleo precioso sobre a cabeça — esse óleo era utilizado em cerimônias religiosas e servia para ungir sacerdotes e reis. Representava pureza, beleza, acolhimento e consagração. O uso do óleo também remetia ao cuidado e à hospitalidade, muito valorizados na cultura do Oriente Médio.
- O orvalho do Hermon sobre os montes de Sião — o Monte Hermon, ao norte de Israel, tem picos nevados cuja umidade contribui para o abastecimento do Rio Jordão. O orvalho representa o frescor, a fertilidade e o sustento providos por Deus. A associação entre Hermon e Sião indica que a benção da fraternidade não tem fronteiras: ela parte do alto, do sagrado, e alcança todos, de norte a sul.
O Salmo 133 é conhecido como o Salmo da Fraternidade. Sua mensagem central é que viver em harmonia com os irmãos é uma dádiva divina e um ideal a ser buscado com sinceridade. Para nós, maçons, ele deve ser um guia de conduta. A fraternidade que cultivamos na Loja deve ultrapassar os limites do templo e se estender ao nosso convívio com o mundo profano.
Loja de Companheiro
Nas sessões de Companheiro, o Livro da Lei é aberto no capítulo 7 do Livro de Amós, com a leitura dos versículos 7 e 8.
Mostrou-me também isto: Eis que o Senhor estava sobre um muro levantado a prumo, e tinha um prumo na mão. O Senhor me disse: Que vês tu, Amós? Respondi: Um prumo. Então, me disse o Senho: Eis que porei um prumo no meio do meu povo de Israel, e jamais passarei por ele.
O profeta Amós viveu no século VIII a.C., em uma pequena cidade chamada Tecoa, localizada nas colinas de Judá. Era um homem simples, pastor de ovelhas e cultivador de sicômoros, árvores frutíferas da região. Sua origem modesta contrasta com o peso de sua missão, pois foi chamado por Deus para profetizar em um momento crítica da história de Israel.
Após a morte do rei Salomão, o reino foi dividido em dois: o Reino do Norte, com dez tribos, governado por Jeroboão II, e o Reino do Sul, com duas tribos, governado por Roboão. Durante o reinado de Jeroboão II, Israel experimentou um período de grande prosperidade econômica e militar. No entanto, esse progresso material veio acompanhado de corrupção, desigualdade, exploração dos pobres e decadência moral generalizada.
É nesse contexto que Amós surge como uma voz dissonante, um homem do campo que abandona sua rotina para denunciar os abusos da elite dominante e os desvios espirituais do povo. Ele fala com firmeza e sem rodeios, desafiando inclusive o sacerdote Amasias, que era a autoridade religiosa no templo de Betel.
A passagem lida em Loja apresenta uma das visões de Amós, em que Deus aparece junto a um muro, com um prumo na mão. O prumo é uma ferramenta usada para verificar a verticalidade e o alinhamento; em outras palavras, para garantir que a construção está reta, justa e correta.
Quando Deus pergunta a Amós o que ele vê, a resposta é: "Um prumo." E a mensagem que se segue é muito contundente: "Eis que porei um prumo no meio do meu povo de Israel, e jamais passarei por ele." Isso significa que Deus passará a julgar diretamente a conduta do povo, usando um critério objetivo e inegociável: a justiça.
Amós anunciava o julgamento e a ira de Deus não só com as nações pagãs, mas principalmente com seu próprio povo. Os versículos 7 e 8 trazem a defesa que o profeta fazia da justiça e equidade. Em cinco visões simbólicas, Amós anuncia o fim do Reino Setentrional de Israel, devido à situação insustentável diante de Deus, O muro fora construído torto. Não se trata mais de reformá-lo, mas de derrubá-lo e recomeçar, pois aquilo que não está conforme não pode subsistir. Essa imagem traz uma lição poderosa ao Companheiro Maçom: a busca pela retidão deve ser constante. O Prumo representa a consciência e a equidade que precisam guiar nossas ações.
O grau do Companheiro simboliza o desenvolvimento intelectual e moral do maçom. Já não é mais o aprendiz que observa em silêncio, pois agora ele atua, questiona, constrói. E para isso, precisa de parâmetros sólidos. A justiça, representada pelo prumo, deve ser o centro de sua conduta, tanto na vida profana quando na vida maçônica.
Este trecho do Livro de Amós nos convida a um exame pessoal: nossas atitudes estão a prumo? Nossa postura é justa? Temos sido corretos nas pequenas e grandes decisões do cotidiano? A resposta a essas perguntas define o valor da construção que estamos realizando em nossas vidas.
Loja de Mestre
Nas sessões de Mestre, o Livro da Lei é aberto no capítulo 12 de Eclesiastes, com a leitura dos versículos 1, 7 e 8.
Lembra-te também do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais venhas a dizer: não tenho neles contentamento. E o pó volte à terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu. Vaidade de vaidades, diz o pregador, tudo é vaidade.
Diferente de Davi, Salomão não se destacou como guerreiro, mas como um governante sábio, equilibrado e de visão administrativa. Investiu fortemente no comércio exterior, na diplomacia com povos vizinhos e na organização interna do reino. Sua gestão trouxe paz e prosperidade a Israel, consolidando o legado de seu pai.
Salomão também é conhecido por ter erguido o Templo de Jerusalém, ou Templo de Salomão, construído no Monte Moriá, cuja construção iniciou no 4º ano de seu reinado, concluindo-o no 11º. Esse templo se tornou um símbolo da fé judaica e da centralidade de Jerusalém para a vida espiritual do povo Hebreu.
Literalmente, Salomão é considerado autor de três livros bíblicos: Provérbios, Cântico dos Cânticos e Eclesiastes. Cada um deles representa um fase distinta da vida. Provérbios reflete a sabedoria prática; Cântico dos Cânticos exalta o amor; e Eclesiastes revela a maturidade de quem já viveu muito, experimentou intensamente e agora reflete sobre o sentido da existência.
O capítulo 12 de Eclesiastes, lido nas Lojas de Mestre, nos oferece uma visão direta e realista sobre a transitoriedade da vida. O texto nos convida a lembrar do Criador enquanto ainda temos vigor, pois chegará o tempo em que o corpo enfraquece, a mente se cansa e os sentidos já não encontram prazer. Essa é uma exortação à consciência desde cedo, ao preparo interior antes da decadência física e da morte inevitável.
Ao dizer que o pó retorna à terra e o espírito volta a Deus, o pregador reafirma a finitude da existência material e a natureza espiritual do ser humano. Tudo o que acumulamos, realizamos ou desfrutamos, não impede o encerramento natural da vida. O que fica é a essência.
A expressão "vaidade de vaidades, tudo é vaidade" não deve ser lida como uma visão negativa da vida, mas como um alerta de que não devemos colocar nosso coração em coisas passageiras, pois elas não oferecem sustentação duradoura. O verdadeiro valor da vida está em como a vivemos.
Para o Mestre Maçom, esse ensinamento é um ponto de reflexão fundamental. Após atravessar os graus de Aprendiz e Companheiro, agora ele confronta sua própria mortalidade. A simbologia do grau o leva a considerar que a verdadeira iniciação é interior e se reflete na forma como conduz sua vida. Preparar-se para a morte significa viver com consciência, cultivar virtudes e deixar um legado digno.
Essa leitura do Livro da Lei nas sessões do grau de Mestre, marca a maturidade do processo maçônico. O Mestre sabe que a vida não é eterna, e por isso mesmo, precisa ser bem vivida, com retidão, propósito e equilíbrio.
Conclusão
A abertura do Livro da Lei nos três graus simbólicos do Rito Escocês Antigo e Aceito revela uma progressão lógica e moral na jornada do maçom. Cada passagem bíblica escolhida representa, com clareza o momento em que o iniciado se encontra dentro do seu processo de crescimento pessoal e espiritual.
No grau de Aprendiz, o Salmo 133 exalta a importância da convivência fraterna. A união entre os irmãos é apresentada como um dom precioso e agradável, comparado ao óleo da unção sacerdotal e ao orvalho que nutre a terra. Aqui, o maçom está dando os primeiros passos. Ele é lembrado de que a base de toda a caminhada é a fraternidade sincera, sem máscaras nem interesses ocultos. É um chamado à humildade, ao aprendizado contínuo e à construção de laços duradouros.
Ao passar para o grau de Companheiro, a leitura do Livro de Amós insere um novo elemento: o prumo. A mensagem agora se torna mais exigente, de modo que o maçom passa a ser um agente ativo na construção de seu caráter. O prumo simboliza a necessidade de agir com justiça, de manter a verticalidade moral e de alinhar suas ações àquilo que é correto. A metáfora do muro que precisa ser refeito reforça que estruturas tortas não se corrigem com ajustes superficiais, é preciso reconstrução, com base firme, reta e justa.
No grau de Mestre, finalmente, entra em cena o Eclesiastes, com sua mensagem direta sobre a transitoriedade da vida e uma reflexão sobre que tudo o que é material é passageiro. O tempo é implacável e a morte é certa. Por isso, é necessário lembrar do Criador ainda nos dias de força e vigor, antes que cheguem os momentos de cansaço e fragilidade. Esse é o chamado à maturidade espiritual: viver com propósito, evitar o desperdício da vida com vaidades, e cultivar o que realmente tem valor.
Estas leituras se complementam, formando um percurso coerente de formação moral. O Aprendiz é acolhido e instruído na fraternidade; o Companheiro é desafiado à retidão; e o Mestre é alertado à finitude da existência e à importância de viver bem. O maçom, ao compreender esse processo, passa a enxergar cada abertura do Livro da Lei como um lembrete de sua própria jornada.
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Inspirado em uma peça de arquitetura do irmão José Ângelo Cia, mestre instalado da A∴R∴L∴S∴ Gralha Azul, nº 2514, do Or∴ de São José dos Pinhais, PR, intitulada "Abertura do Livro da Lei – Correlação dos Três Graus", de 2018.
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Referências
Bíblia Sagrada – Salmos (Cânticos de Romagem), Livro de Amós, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Provérbios, Reis.
Castelani, José. A Maçonaria e sua Herança Hebraica. 1ª Edição. Londrina, A Trolha: 1993.
Paiva, Antônio G. M∴M∴ – Loja Charitas II, Or∴ São João del Rei, MG. Reflexões sobre o Salmo 133.
Pr. Tronco, Thomas. Comentário sobre o Salmo 133.
Juk, Pedro. Amós – Abertura do Livro da Lei no Grau de Companheiro – REAA. Blog do Pedro Juk, 3 abr. 2017. Disponível em: https://pedro-juk.blogspot.com/2017/04/amos-abertura-do-livro-da-lei-no-grau.html
Menezes, Honório Sampaio. M∴I∴ – Loja Baden-Powell, Or∴ Porto Alegre, RS. A Maçonaria e o Livro de Eclesiastes.
Wikipedia. Entradas sobre Rei David, Livro de Amós e Rei Salomão.

"... O verdadeiro valor da vida está em como a vivemos."
ResponderExcluirLição trivial, nem sempre lembrada...
Na jornada maçônica cada grau a importância para nossa lapidação moral e espiritual. A maçonaria nos proporciona com sabedoria tudo isso.
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