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EXPOSURES MAÇÔNICAS DO SÉC. XVIII — PEQUENA ANÁLISE DE THREE DISTINCT KNOCKS (1760)

O século XVIII foi um período marcado por disputas na maçonaria inglesa. A criação da Grande Loja da Inglaterra em 1717 pelos Modernos de Londres não foi bem aceita por uma parcela importante dos maçons ingleses, especialmente os de York, cidade situada ao norte da Inglaterra. Os maçons Antigos, como se autodenominavam, acusavam os Modernos de Londres de terem deturpado os rituais, simplificando cerimônias e introduzindo certas ‘novidades’ liberais sobre as quais eram totalmente contra. Essa contenda teve um importante episódio em 1751 com a fundação, pelos Antigos, da Grande Loja dos Antigos, com o pressuposto de serem eles os “guardiões da antiga tradição”.

Nessa época, a maçonaria inglesa passava por uma fase muito turbulenta, especialmente por causa dos vários textos reveladores (exposures) que vinham sendo publicados pelos jornais londrinos, onde eram divulgados vários detalhes dos costumes maçônicos e o modo como os maçons da época trabalhavam em suas lojas. Uma vez que esses textos tinham grande sucesso, se tornaram financeiramente muito rentáveis, o que fez com que houvesse cada vez mais exposures sendo publicadas, numa faina para matar a curiosidade do público.

Dentre os vários textos publicados, podemos destacar três que tiveram muita relevância. O primeiro deles é o Masonry Dissected, de Samuel Prichard, publicado em 1730, e três décadas depois vieram Three Distinct Knocks (TDK) (1760) e Jachin & Boaz (J&B) (1762). Este hiato de 30 anos não quer dizer que não houveram outras exposures no período, contudo, estes três textos são os de maior importância. Estes dois últimos se destacam ainda porque trouxeram detalhes que não apareciam nos outros textos, como, por exemplo, procedimentos de abertura e fechamento da loja e para recepção e passagem de grau, palavras e sinais, posição dos oficiais, etc. Além disso, outro detalhe que tornou estas duas exposures singulares, é que o J&B mostrava o modo de trabalho dos Modernos e o TDK o dos Antigos.

Dado o contexto em que estes textos estão inseridos, passamos agora a analisar especificamente o TDK. O autor, que se identificou apenas como W__ O___ V___n, inicia o texto com um prefácio onde relata suas “razões para abrir as portas da Maçonaria ao mundo todo”, o qual compartilhamos a seguir o conteúdo, em tradução livre para o português.

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As razões do autor para abrir a porta da Maçonaria para todo o mundo.
Dedicado ao Muito Respeitável Companhia dos Fiéis Mestres Irlandeses da Número 1, e a toda a Fraternidade, a quem isto possa ser de utilidade.

Senhores,

    Sou obrigado a dedicar meu Livro à Número 1, porque todos eles são Mestres, e estão em Parceria; além disso, ficariam zangados se eu não lhes desse essa Honra; pois aqueles que não são Mestres não podem ser admitidos: mas isto pode ser de utilidade aos Irmãos mais jovens, porque lhes permitirá conhecer os Truques que são praticados, os quais vocês não conseguem aprender em menos de seis ou sete anos, e com a Despesa de muitas Libras; mas aqui vocês podem aprender tudo em um mês, e ir e ensinar tão bem quanto os melhores deles. Mas se você pertence a qualquer Loja, você deve dar um xelim a cada trimestre à Número 1, para encher as suas malditas barrigas, e talvez sua família precisasse desse dinheiro em casa: mas esta Família de Plutão tem a ousadia de dizer que, se você não mandar o xelim quando eles querem, você será excluído de todas as Lojas; e assim se vão quatro ou cinco xelins por ano, que você nem sabe para quê; além de outras Despesas, que são dez vezes maiores. Eu poderia dar a você uma Lista de Despesas de um único ano que o deixaria espantado; mas isso não importa, pois qualquer homem que tenha sido Maçom por meio ano e venha ler este Livro saberá que o que digo é verdade, e ainda mais se ele o reler; pois isso o introduzirá em coisas que ele nunca pensou antes, mas agora ele as verá tão claras quanto possível.
    Reze, Irmão, qual é o problema de seis, oito ou dez Irmãos que desejam aprender Maçonaria se reunirem na casa de um Irmão quando quiserem, gastarem seus seis pence com prazer, e se separarem em paz, sem disputas e sem enganarem uns aos outros; o que muitas vezes acontece ultimamente, pela admissão de homens maus, que lançam encargos sobre homens que não são honestos o suficiente para manter nem um título disso? Eu poderia falar de dois ou três que foram feitos Mestres recentemente, e em um mês se mostraram os mais miseráveis canalhas do mundo.
Portanto, aconselho todos os jovens Irmãos a se reunirem como acima dito; primeiro na casa de um Irmão, e depois na de outro, isto é, de forma pública: pois que motivo há para você ficar confinado a qualquer Loja particular, quando pode realizar uma Loja onde quiser e quando quiser, tendo três, cinco, sete ou onze, e quantos mais você desejar; e assim vocês serão úteis uns aos outros, sem enviar seu dinheiro ao grande Número 1, como eles o chamam, ao qual dizem ser para a Caridade; mas se for, receio que façam de si mesmos os Pobres: assim eu lhes aconselho, além disso, que nada tenham a ver com eles, pois são Lobos em pele de Ovelha.
    Era costume entre os Maçons Primitivos, e também entre os Cristãos Primitivos, visitar uns aos outros; pois se diz que ferro afia ferro, assim como um Homem afia o outro.
    Mas parece que ouço alguns jovens Irmãos dizerem: Quem nos instruirá? Eu respondo: compre este Livro, e você terá instruções suficientes. Mas talvez você diga: Como saberei que isto está correto? Procure algum irlandês fiel por duas ou três vezes, e você logo verá que este Livro está correto; pois todos eles entendem Maçonaria, até mesmo a Classe mais baixa, quando feita; pois lá é o principal negócio deles. No inverno, eles têm um pouco de dinheiro da Caixa do Número 1, para comprar algumas roupas, de modo que você pode ter um deles qualquer noite, pagando apenas pelo que ele comer e beber, pois eles nunca pagam nada; mas se puderem pôr as mãos no dinheiro, eles farão isso: assim, eu o alerto para tomar cuidado, e você pode se sair bem com eles, pagando apenas as despesas da noite: ou você pode ter um Instrutor fiel do Número 1; o Secretário, ou alguém semelhante, com um ou dois com ele; mas todos devem ser livres; pois eles vêm para instruir os jovens Irmãos; e às vezes você deve pagar uma carruagem ou viagem a água, ou algo semelhante, dependendo da situação do local.
    Portanto, é o melhor modo de não ser incomodado com eles, mas evitar o máximo possível; ainda assim, eu gostaria que você tentasse, e você descobrirá que o que digo é verdadeiro; pois é por Experiência. Eu poderia dizer dez vezes mais, mas não quero ser muito severo: apenas lhe dou dicas pelas quais, com um pouco de Experiência, você descobrirá tudo; e muito mais vilania que é praticada, e três partes dos Maçons livres nada sabem sobre o assunto.
    Pois eles fingiram tanta Santidade quando vim para a Inglaterra, que achei que fossem Deuses, mas logo os encontrei como Diabos. Pois a princípio achei que toda sua amizade fingida fosse verdadeira, porque eles tinham tanto disso que me deixou enjoado, e posso dizer que alguns de vocês, Irmãos, têm estado tão enojados com essa Honradez fingida quanto eu estive.
    Mas com toda a sua esperteza, nunca puderam descobrir que eu nunca fui feito Maçom, ou recebi qualquer um dos seguintes Juramentos; e ainda assim fui membro de várias Lojas, tanto Antigas quanto Modernas, e do Arco Real; e fui Mestre de algumas Lojas na Inglaterra. Direi como consegui isso sem nunca ter sido feito, da seguinte forma.
    Sou alemão, nascido perto de Berlim; e sendo familiarizado com uma Família inglesa que tinha grande quantidade de livros, e sendo íntimo de seus Filhos, aprendi um pouco de Inglês, e tomei grande prazer em ler Livros ingleses, o que eu poderia ter feito quando quisesse. Por volta do ano de 1740 (eu tinha então cerca de 20 anos), procurando algo na Biblioteca de meu Vizinho, encontrei um Panfleto chamado Masonry Dissected, um Livro inglês; li com grande atenção, porque havia ouvido que a Maçonaria era algo muito ruim; por isso, observei muito este Livro, e pude dizer quase tudo de cor, e concluí que era a coisa inteira; mas não era, embora tivesse o suficiente para ser admitido numa Loja.
    Cerca de dois ou três anos depois, fui para Paris; não estive lá muito tempo quando trabalhei com um Homem que era Maçom e pertencia a uma Loja em Paris. Conversamos sobre Maçonaria (eu tinha ouvido que ele era Maçom antes). Perguntei se ele era Maçom Livre; ele me perguntou: “E você?” Eu disse: “Sou.” Ele perguntou onde eu havia sido feito, e eu disse: “Em Berlim.” Ele me fez algumas perguntas, que respondi a partir do Livro, e aconteceu de estarem corretas; então ele apertou minha mão e me chamou de Irmão, e levou-me à sua Loja, da qual me tornei Membro, e à qual pertenço por dois ou três anos; então meus negócios me levaram à Inglaterra. Quando parti, deram-me um Certificado e lamentaram muito minha partida, mas pediram-me para lembrar de todos os Irmãos na Inglaterra, o que não esqueci.
    Fui a uma Loja Moderna, como os Irlandeses a chamam, cuja Grande Loja é realizada na Devil Tavern, mas não pretendo mencionar a Loja. Eles nunca discutiram quando lhes mostrei meu Certificado, pois gostavam de ouvir como os Maçons procediam em outros Países, o que é exatamente como aqui, apenas uma coisa no Grau de Mestre, e falarei dela na parte do Mestre.
    Depois fui convidado a uma Loja Irlandesa, que se chamou “os mais antigos Maçons”, cuja Grande Loja é realizada na Five Bell Tavern na Strand, e é sobre isso que este Livro trata; por cuja razão seu Secretário, dirigindo carruagens na rua, achou adequado usar tamanha grosseria para depreciá-lo em sua estupidez não-sensical, chamado A---n R--n: mas do outro não me meto, pois há um Livro já publicado, chamado Masonry Dissected, publicado em 1730; e acredito que era toda a Maçonaria usada naquele tempo, mas não é metade da que se usa agora, embora seja a melhor que já foi escrita sobre o assunto antes disto.
    Apesar de terem sido escritos muitos Livros sobre Maçonaria, a maioria para desviar a mente do leitor do Livro mencionado; pois li todos os que foram publicados nestes vinte anos, e nunca vi qualquer Maçonaria neles exceto no referido Livro. Há um que foi publicado, chamado A Master-Key to Free Masonry, mas não é “a Coisa”, embora seja algo sobre o assunto, mas tão pouco que não vale a pena mencionar; não há uma só coisa correta, apenas algumas das Palavras, mas não nos lugares adequados. Eu me pergunto como algum Homem pode se atrever a escrever um Livro sobre algo do qual nada sabe, apanhando um pedaço aqui e ali. Pois nenhum Homem é capaz de falar ou escrever este Segredo, sem ter visitado Lojas por alguns anos.
    Ele fala de desenhar no teto com um lápis, mostrando que nada sabe sobre o assunto; pois encheria os tetos das pessoas de marcas e riscos, que logo seriam conhecidos pelo mundo inteiro. Todos os Homens que viram qualquer coisa de Maçonaria sabem que seus desenhos são feitos no Chão (e essa é a razão do Mopa e do Balde), mas qualquer Homem que leia meu Livro com Atenção achará que está correto por seu próprio julgamento; pois asseguro que nunca houve um Relato tão exato publicado antes, que espero dar total satisfação a todos os Amantes da Verdade; assim eu permanecerei,

Seu mais obediente
Humilde Servo,

W—— O—— V——n

P.S. O estilo das Apologias citadas e seguintes pode não ser tão bom quanto deveria, mas espero que o Leitor me desculpe, pois não sou inglês; mas asseguro que minha intenção é a Verdade e a Justiça, e espero ser compreendido.

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Ao analisar este prefácio é importante compreender a quem o autor dedica sua obra: a “Companhia dos Fieis Mestres Irlandeses da Número 1”. No texto em inglês, o autor se refere a ela como Number 1, e esta expressão se refere à Loja Nº 1 da Grande Loja dos Antigos, potência fundada em 1751, que era composta majoritariamente por maçons irlandeses. Os Antigos eram, em grande parte, irlandeses de classes trabalhadoras, em contraste com o perfil mais aristocrático dos Modernos. O TDK é aceito como a exposure que mais se aproxima do modo de trabalho dos Antigos, e a dedicatória do autor, embora em tom respeitoso, é carregada de ironia.

O autor dedica o livro à Number 1 não por admiração, mas sim porque quis desmascará-la, dizendo que foi “obrigado” a fazê-lo porque os membros dessa loja poderiam irritar-se se não recebessem a “homenagem”. Segue acusando os membros da loja de práticas financeiras abusivas, cobrando xelins trimestrais sob a justificativa de caridade, quando, segundo ele, esse dinheiro servia para “encher suas malditas barrigas”.

O tom irônico revela que o autor deseja expor não apenas os rituais, mas os mecanismos internos de poder e exploração econômica existentes entre os Antigos. Assim, o texto funciona simultaneamente como uma divulgação dos segredos maçônicos e como uma acusação contra a estrutura administrativa da Grande Loja dos Antigos. O autor chama esses mestres de “Lobos em pele de Ovelha”, denunciando aquilo que considera corrupção, hipocrisia e manipulação, sugerindo aos “jovens irmãos” que se afastem da Number 1 e estudem Maçonaria de forma independente ou, ironicamente, lendo seu próprio livro.

O tom irônico e as críticas abertas mostram que as reais motivações do autor era desacreditar as lideranças dos Antigos e denunciar a ganâncias e abuso de poder dos mestres da Number 1. Um fato curioso sobre o texto é que o autor conta com orgulho que foi aceito como maçom em várias lojas, tanto Antigas quanto Modernas, sem de fato nunca ter sido iniciado (nas palavras do texto, sem nunca ter sido “regularmente feito maçom”) e que fez isso apenas com base nos conhecimentos que aprendeu no livro Masonry Dissected. Com o TDK, o autor quis mostrar que os sistemas de controle das lojas eram frágeis e que os “segredos” podiam ser aprendidos por qualquer um, sem precisar se submeter ao controle das grandes lojas. Nota-se, portanto, porque o TDK foi tão importante, pois além de revelar a prática ritualística dos Antigos, mostrou que haviam muitas tensões internas e um clima de desconfiança que foi pano de fundo para a publicação das várias exposures do século XVIII.

Apesar das motivações políticas do autor, o documento traz muitas informações que nos ajudam a entender a gênese de várias práticas ritualísticas que são empregadas em vários ritos que praticamos.

Logo no início, o TDK contém uma ilustração com a disposição do templo, indicando a posição do Oriente (leste), Ocidente (oeste) e as colunas do Norte e do Sul, indicando também as posições dos oficiais da loja, a saber:

  • O Venerável Mestre (Master), o 1º Vigilante (Senior Warden) e o último Venerável (Pass-Master) no Oriente;
  • O Secretário (Secretary) no Norte;
  • O 2º Vigilante no Sul;
  • O 1º Diácono (Senior Deacon) e o 2º Diácono (Junior Deacon) no Ocidente.

A ilustração também traz indicações sobre a presença da Bíblia no Oriente e instruções sobre as joias e ferramentas de trabalhos dos oficiais. O Past Master (aquele que já foi Venerável) tinha um Compasso aberto em 65° e o Sol, com uma linha de Cordas ao redor do pescoço. O Secretário, no Norte, traz consigo duas canetas cruzadas apensas no pescoço. O Mestre e seus dois Diáconos utilizar um bastão preto, com cerca de 7 pés de altura, que utilizam na abertura e no fechamento da Loja. O 2º Vigilante, ao Sul, traz consigo um Prumo pendurado em seu pescoço e o 1º Vigilante um Nível, além de que os Vigilantes possuem também uma coluna cada um, com cerca de 20 polegadas de altura. Por último, a ilustração mostra a posição das velas, sendo uma no Oriente, uma ao Sul e outra no Ocidente.

O mesmo tipo de ilustração também aparece na exposure J&B, de 1762, porém podemos notar várias diferenças. Temos a presença da Bíblia no Ocidente e a velas (G, H, I) em posições semelhantes à ilustração do TDK, porém alguns oficiais tomam assento em lugares diferentes:

  • No Oriente ficam o Venerável Mestre (Master), o 1º Diácono (A, Senior Deacon) e o Past Master (B);
  • No Ocidente estão o 1º Vigilante (C, Senior Warden) e o 2º Diácono (D, Junior Deacon)
  • No Norte o Secretário (F, Secretary)
  • E ao Sul o 2º Vigilante (E, Junior Warden)

Nota-se aqui a inversão da posição do 1º Vigilante com o 1º Diácono. No TDK o 1º Vigilante senta-se no Oriente e o 1º Diácono no Ocidente, enquanto que no J&B suas posições estão invertidas.

É evidente que estas disposições de oficiais no templo estão ligadas ao modo de trabalho do rito inglês (Craft), entretanto, podemos até certo ponto correlacionar estas orientações ritualísticas com o modo de trabalho de muitos ritos praticados atualmente. Trouxemos aqui esta comparação entre o TDK e o J&B somente para despertar no leitor a curiosidade para se aprofundar no estudo destes dois tão importantes documentos da história da Maçonaria.

Esta simples comparação entre o TDK e o J&B evidencia diferenças práticas na disposição dos oficiais e de instrumentos de trabalho, porém, as causas para a contenda entre Antigos e Modernos ia muito além. Um dos grandes problemas, por exemplo, foi a mudança de caráter religioso promovida pelos Modernos após 1717, com a adoção do “Parágrafo Relativo a Deus e à Religião” nas Constituições de Anderson. Antes de 1717, as bases dos Maçons tinham sido de religião cristã, e a própria Arte, a julgar por suas Constituições mais antigas, possuía um caráter francamente Cristão Trinitário. As novas Constituições, agora associadas ao nome de Anderson, mudaram tudo isso; de acordo com sua formulação um tanto quanto ambígua, um Maçom era obrigado a ser apenas daquela religião “na qual todos os homens de bem estão de acordo”.

Essa alteração, nitidamente mais liberal e universalista, desagradou profundamente aqueles que desejavam ver a Maçonaria permanecer explicitamente cristã. Para muitos maçons, especialmente os de origem irlandesa e escocesa, a exaustiva neutralização do caráter religioso tradicional soava como uma ruptura ilegítima com a herança da Arte. Consequentemente, eles viam nos Modernos um grupo disposto a acomodar conveniências filosóficas e sociais às custas da identidade original da instituição. Esse descontentamento religioso, somado às diferenças ritualísticas, às tensões sociais e às disputas por autoridade, compôs uma parte essencial do pano de fundo que, mais tarde, alimentaria o surgimento da Grande Loja dos Antigos em 1751.

É justamente a partir dessa leitura contextualizada que podemos compreender a importância histórica do Three Distinct Knocks, que deve ser visto como um documento que surge em um ambiente marcado por disputas políticas, rivalidades institucionais e diferentes compreensões sobre o que era, de fato, a “Maçonaria correta”. Sua importância está tanto na riqueza da descrição dos rituais dos Antigos, quanto na denúncia, do autor, das práticas administrativas, tensões internas e fragilidades organizacionais da Grande Loja dos Antigos. O prefácio, cheio de ironias e acusações, mostra que ao dedicar sua obra à “Number 1”, o autor escancara as contradições da própria liderança que pretendia defender a pureza da Maçonaria.

Nesse sentido, o TDK oferece um registro privilegiado das práticas dos Antigos antes da padronização de 1813 e expõe os mecanismos sociopolíticos que influenciaram a formação da maçonaria inglesa moderna. Ao lado de Masonry Dissected (1730) e Jachin & Boaz (1762), o TDK compõe um conjunto de exposures sem o qual seria muito mais difícil estudar a gênese de várias práticas ritualísticas que hoje utilizamos em diferentes ritos.

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M∴M∴ Dyogner do Valle Mildemberger
ARLS Gralha Azul, nº 2514, Benfeitora da Ordem
GOB/PR - REAA

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