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A PROVA DA TERRA E A CÂMARA DE REFLEXÃO

No Rito Escocês Antigo e Aceito, a prova da terra é a primeira experiência simbólica do candidato no dia da sua iniciação. Ela ocorre na Câmara de Reflexão e seu objetivo é preparar o candidato para ingressar na Ordem, colocando-o em contato consigo mesmo antes mesmo que qualquer instrução ou ritual seja executado no Templo.

A terra simboliza a origem, a base. Tudo nasce da terra e a ela retorna. Sendo assim, quando o candidato é introduzido na Câmara de Reflexão está simbolicamente voltando ao ponto inicial, ao essencial (de essência). Por isso, a Câmara é pequena, sem janelas, pouco iluminada e silenciosa. Ela representa uma caverna, um espaço de recolhimento, onde o candidato fica afastado temporariamente do mundo exterior para refletir sobre sua existência, sobre sua própria condição.

Durante a Prova da Terra, o candidato passa por três experiências fundamentais.

A primeira delas é o despojamento. Ao deixar joias, dinheiro, objetos metálicos e adornos, o candidato é colocado simbolicamente em igualdade com qualquer outro homem, pois na Terra, todos são iguais, ou seja, o valor de um homem não está no que ele possui, mas sim no que ele é.

A segunda é o isolamento, uma vez que ele é separado do meio, do ruído, das distrações e das influências externas e permanece na solidão e no silêncio da Câmara, num momento de preparação e reflexão.

A terceira é a percepção de que a terra não distingue cargos, títulos ou posições sociais. Isso é reforçado pelos dizeres “lembra-te, homem, que és pó e ao pó retornarás”.

A Câmara de Reflexão terá as paredes pintadas de preto e deve haver nelas as seguintes inscrições:

Se tens medo, não vás adiante

Se a curiosidade aqui te conduz, retira-te

Se fores dissimulado, serás descoberto

Se queres bem empregar a tua vida, pensa na morte

Se tens apego às distinções mundanas, vai-te, pois nós não as reconhecemos

Se temes que teus defeitos sejam descobertos, não estarás bem entre nós


Haverá ainda uma cadeira e uma mesa sobre a qual haverão vários símbolos. A iluminação deve ser tênue; o ambiente deve ser sóbrio e austero.

Outra experiência também vivenciada pelo candidato durante a Prova da Terra é a contemplação dos vários símbolos presentes na Câmara de Reflexão. Aqui cabe um comentário relativo à preparação do candidato pelos Expertos (ou outro cargo conforme o Rito) nos momentos que antecedem a introdução do neófito na Câmara. Tendo em vista que é essencial que o candidato entenda o objetivo da Prova da Terra, é recomendado que os Expertos o orientem o candidato para observar e refletir com atenção. Os símbolos presentes da Câmara de Reflexão têm cada qual e a seu tempo um objetivo bem definido dentro da senda iniciática:

  • A ampulheta;
  • O crânio (ou esqueleto)
  • O pão e a água
  • O enxofre, o mercúrio e o sal
  • O galo
  • O acrônimo alquímico V.I.T.R.I.O.L.

A ampulheta representa o tempo, que passa e não retorna, e está ali para lembrar o candidato que sua existência é limitada e que ele deve agir com responsabilidade enquanto ainda dispõe desse tempo.

O crânio está ali para lembrar a mortalidade e a igualdade entre os homens. Todos têm a mesma origem e o mesmo destino (tu és pó e ao pó retornarás). É um lembrete de que a morte e a terra reduzem todas as distinções mundanas ao essencial. Tal como a expressão em latim Memento Mori, usada na filosofia estoica, que significa “lembra-te de que és mortal” ou “lembra-te de que morrerás”, sendo um lembrete sobre a mortalidade e a brevidade da vida.

O pão é o símbolo do alimento do corpo e água, do espírito. Uma das interpretações destes símbolos é a de que o homem é um ser ‘integral’ e precisa cuidar dessas duas dimensões para manter o equilíbrio. Outras interpretações fazem referência ainda à putrefação e à germinação, em uma alusão aos mitos solares da antiguidade, onde a semente de trigo (o pão) precisa ser lançada à terra e apodrecer e, em presença da água, irá germinar e retornar à vida.

O enxofre, o mercúrio e o sal formam o ternário alquímico e devem ser interpretados de forma simples e sem nuances ocultistas. O enxofre representa a energia e a vontade de agir, sendo símbolo do impulso, do entusiasmo, a força que move. O mercúrio representa a razão e a inteligência, a capacidade de pensar, aprender e discernir. O sal, por sua vez, representa o equilíbrio, a estabilidade, o controle, a ponderação e a constância. Este ternário alquímico ensina que o maçom deve encontrar formas de harmonizar ação, razão e equilíbrio, pois, nenhum desses elementos é capaz, por si só, de conduzir ao aperfeiçoamento.

O galo vem acompanhado da expressão “Vigilância e Perseverança” e anuncia o despertar. Assim como o amanhecer marca o início de um novo dia, a Prova da Terra marca o início de uma nova postura diante da vida, a postura do homem maçom. O galo, então, representa a anunciação da Luz sobre as Trevas (o nascer do dia após a noite escura). A vigilância deve ser sobre si mesmo para cuidar de suas atitudes, palavras e escolhas. A perseverança é manter a constância no esforço de melhorar.

O acrônimo alquímico V.I.T.R.I.O.L. certamente será desconhecido pela maior parte dos candidatos antes de sua iniciação. É a sigla da expressão latina Visita Interiora Terrae Rectificandoque Invenies Occultum Lapidem que significa “visita o interior da Terra e retificando encontrará a pedra oculta”. A pedra oculta, na alquimia, era a pedra filosofal, que dizia ser capaz de transformar qualquer metal em ouro. Na Maçonaria, contudo, seu simbolismo está ligado à pedra oculta, ou seja, a pedra interior, e simboliza a busca pelo autoaperfeiçoamento. Tal como a semente lançada à terra que, sem o cuidado do lavrador, brotará, mas perecerá, assim também é a transformação do homem: a Maçonaria é a terra, mas apenas isso, o solo. Cabe ao homem maçom trabalhar sobre si mesmo a fim de dar frutos.

Percebe-se, por isso, que a Prova da Terra é crucial para que o candidato tenha uma iniciação que atinja os objetivos pedagógicos necessários para que sua senda na Coluna do Norte seja iniciaticamente plena. É necessário que o candidato que passa pela Câmara de Reflexão tenha claro em mente que ele é mortal, que é igual a qualquer outro homem, que possui tempo limitado e que deve assumir a responsabilidade por seu próprio aperfeiçoamento. A Maçonaria não torna nenhum homem em pessoa melhor, é ele que deve fazê-lo por si mesmo. A Maçonaria é a terra, ele é a semente.

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M∴M∴ Dyogner do Valle Mildemberger
A∴R∴L∴S∴ Gralha Azul, nº 2514 - Benfeitora da Ordem
REAA/GOB - Or∴ São José dos Pinhais, PR

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