De uns tempos para cá, tenho sentido algum incômodo ao ouvir certos textos maçônicos sendo lidos em Loja. Eles são organizados e corretos do ponto de vista formal. Muitas vezes, inclusive, trazem informações úteis e podem ampliar a compreensão de quem escuta. O incômodo surge quando fica claro que quem apresentou o texto não passou por nenhum processo real de estudo. Com a popularização da inteligência artificial, isso ficou mais fácil de perceber, mas não é algo novo. A tecnologia apenas escancarou um hábito antigo. Apresentar textos prontos sem que isso tenha acrescentado algo a quem os apresenta.
Escrever, na Maçonaria, nunca foi um fim em si mesmo. Sempre foi um meio. Um meio para organizar ideias, confrontar leituras, perceber incoerências e, muitas vezes, descobrir que se sabia menos do que se imaginava. É por isso que comecei este blog. Aprendo escrevendo e depois compartilho minhas ideias. É dessa forma que imagino que muitos irmãos deveriam encarar a tarefa de escrever um texto sobre algum tema maçônico, mas o que vejo por aí nas lojas que visito e com muitos irmãos com os quais converso é uma preguiça intelectual.
Por outro lado, também sei que cada um tem seu modo de viver a Maçonaria, e a Ordem não precisa somente de intelectuais, não é por isso que ela existe e não é essa sua finalidade. Entretanto, há algumas fases da nossa jornada maçônica em que a pesquisa e a produção de textos é indispensável, tendo em vista que a elaboração e apresentação de trabalhos em loja é pré-requisito para progressão de graus.
E por que é que nos pedem que trabalhos sejam feitos e apresentados em Loja? Ora, é para que aquele que produz o texto aprenda sobre o tema, aquilo é um ensinamento. Quando eu era Aprendiz recém iniciado fiz meus primeiros trabalhos pensando que eu deveria chegar na Loja e apresentar algo novo sobre o tema, um Eureka maçônico. Mas cá entre nós, você que é maçom e está lendo este texto, o que há de novo para se escrever sobre A Pedra Bruta ou sobre As Ferramentas de Aprendiz? Ninguém tem que inventar a roda. O Aprendiz tem que apresentar o texto para mostrar que ele aprendeu e não para ensinar os mestres da Loja. Aqui quem sabe até caberia aquele comentário clássico que ouvimos nas sessões em que os decanos lembram que são maçons há dezenas de anos, mas sempre há algo para aprender.
Dito isso, fica mais fácil entender o problema, e ele está mais relacionado à postura de quem apresenta o texto do que no seu conteúdo em si. Muitos irmãos espertinhos recorrem a meios como cópias de trabalhos prontos, trechos inteiros de livros ou inteligência artificial para produzir seus trabalhos, encarando a tarefa de produzir uma peça de arquitetura como uma mera formalidade para poder preencher os requisitos para progressão de grau. Mas, como já dito, a escrita é uma forma de aprendizado, de organização de ideias e quando esse processo é pulado o objetivo pedagógico da elaboração do trabalho não é atingido. O texto até existe, mas o trabalho interior não aconteceu.
O caso dos aprendizes torna isso ainda mais evidente. Quando um aprendiz recebe um tema como a Pedra Bruta, ninguém espera que ele traga uma interpretação original ou uma leitura inédita. Não é isso. O que se espera é que ele estude a literatura consagrada, leia autores sérios, entenda o símbolo e consiga expor, com suas próprias palavras, o que compreendeu. O trabalho existe para ele, não para a Loja. Usar inteligência artificial nesse contexto de forma acrítica é inverter completamente o sentido da proposta. O aprendiz pode até apresentar algo correto, mas perdeu a oportunidade de aprender aquilo que o tema deveria ensinar. A maioria dos maçons tem curso superior, já passou por universidade, escreveu trabalhos acadêmicos, relatórios, artigos. A dificuldade não é técnica. O que muitas vezes existe é falta de disposição para sentar, ler, pensar e escrever. Dá trabalho, sempre deu, e não há tecnologia que elimine esse esforço sem eliminar junto o aprendizado.
Todos nós, maçons, devemos lembrar porque a Maçonaria combate a ignorância em todas as formas, pois ela é a causa de todos os vícios e seus princípios são: nada saber, saber mal o que sabe e saber coisas outras além do que deve saber. Portanto, a recusa ao esforço para aprender é uma forma de intensificar as trevas da ignorância sobre si mesmo. É justamente aqui que a preguiça intelectual se revela. A inteligência artificial entra como justificativa conveniente, pois basta inserir um prompt e o texto aparece rápido, bem escrito e organizado e, pronto! Tudo resolvido. Todavia, quem apresentou o trabalho continua exatamente no mesmo lugar de antes.
É preciso deixar claro que a crítica aqui não é ao uso da inteligência artificial em si. Ela pode ser uma ferramenta útil quando bem empregada. Reorganizar parágrafos, ajudar a encontrar palavras melhores, eliminar repetições grosseiras, ajustar a ordem de ideias já pensadas. Tudo isso pode facilitar o trabalho e a ferramenta pode ajudar a dar forma ao pensamento, mas não pode substituir o pensamento.
Por essa razão, a questão da honestidade autoral se torna inevitável. Em textos publicados em blogs pessoais, em reflexões livres, cada um sabe o que está fazendo e responde por isso. Mas é completamente diferente quando se trata de trabalhos apresentados em Loja, pois neste caso os textos fazem parte de um processo formativo. Quando alguém apresenta um trabalho que não produziu, mesmo que o conteúdo esteja correto, há uma quebra de sentido. Não se trata de enganar os outros, mas de enganar a si mesmo. Nesses tempos de IA, todavia, não é incomum irmãos em Loja endossarem as apresentações desses trabalhos quando usam a palavra para “parabenizar o irmão apresentador pelo belo trabalho”, ou então dizer que “foi um tempo de estudos profícuo”, ou ainda encorajar o irmão apresentador a “continuar nesse caminho de lapidação da sua pedra bruta”.
Foi isso que me causou irritação quando recebi, por WhatsApp, uma revista maçônica em PDF e comecei a ler o primeiro texto. Estava evidente que não havia ali um autor, mas uma colagem extraída de uma inteligência artificial. As frases eram bem encaixadas, o vocabulário era genérico, e não havia uma posição clara. Não era preciso detector de IA algum para perceber. O que mais incomodou não foi apenas o autor assinar algo que não escreveu, mas o fato de isso ter passado pelo editor da revista sem qualquer critério. Fica a pergunta: será que se espera tão pouco do leitor a ponto de achar que ninguém perceberia?
Essa situação não é isolada. Ela aparece também em Loja. Já ouvi textos sendo lidos com a justificativa de que tinham sido escritos há muito tempo e apenas adaptados para outro rito. Ainda assim, o texto carregava todas as marcas de algo que não passou pela cabeça de quem o lia. Quem estuda e escreve reconhece isso com facilidade. Há um tipo de preguiça intelectual aí que não deveria ser tolerada, mas encorajamos isto sempre que não fazemos nenhuma curadoria sobre os trabalhos que serão apresentados em loja.
A inteligência artificial acabou criando um novo tipo de vaidade, pois pessoas que nunca tiveram o hábito de estudar ou escrever passam a produzir textos extensos, organizados, aparentemente profundos. Conheço irmãos que dizem com todas as letras que não gostam de ler, mas na hora de escrever um trabalho a coisa sai perfeita. Não entra na minha cabeça que alguém que não lê possa escrever bem. Mark Twain, famoso escritor americano, disse certa vez que quem não lê não tem vantagem alguma sobre quem não sabe ler.
Aqui cabe a autocrítica. Eu uso inteligência artificial. Usei, inclusive, na produção deste texto. Mas usei para organizar ideias, testar a ordem de argumentos, revisar trechos. Justamente por isso sei reconhecê-la quando ela assume o controle do texto. Sei onde ela ajuda e sei onde ela atrapalha. O problema não é usar a ferramenta. O problema é usá-la para evitar o trabalho que deveria ser feito por quem escreve.
Tudo isso se conecta diretamente com o Trivium (Gramática, Dialética e Retórica) que, junto com o Quadrivium (Aritmética, Geometria, Música e Astronomia), formam as sete artes liberais da antiguidade. Estes conceitos são muito importantes dentro da Maçonaria porque funcionam como ferramentas de aprendizado para o maçom. A gramática aparece quando alguém lê, compreende e escreve com clareza. A dialética (ou lógica) quando o texto obriga o autor a organizar ideias, confrontar fontes e perceber contradições. E a retórica, por sua vez, entra quando é preciso expor aquilo com ordem e responsabilidade diante dos outros. É por isso que escrever sempre foi parte do caminho maçônico. Não para produzir textos bonitos, mas para treinar o pensamento. Quem escreve mal no início aprende justamente porque escreve. Quem evita escrever, evita também esse aprendizado. A inteligência artificial, quando usada para substituir esse processo, elimina exatamente aquilo que o Trivium deveria desenvolver. Não melhora a gramática do maçom, não afia sua dialética e não fortalece sua retórica.
A conclusão é que a inteligência artificial não é, definitivamente, uma ameaça para a Maçonaria. A ameaça real é o maçom abrir mão do esforço de pensar e estudar, mantendo-se nas trevas da ignorância por conveniência ou preguiça. A tecnologia pode ajudar, organizar, facilitar e acelerar processos, mas ela não substitui o trabalho interior que cada um precisa fazer. A inteligência artificial não pensa no lugar do indivíduo, também não aprende por ele e logicamente não lapida sua pedra bruta. Esse trabalho continua sendo pessoal, intransferível e, muitas vezes, desconfortável. Se a inteligência artificial for usada como apoio consciente, ela pode ser útil, mas se for usada como atalho para evitar o esforço, ela apenas disfarça a estagnação. Se você é mestre e está lendo este texto, saberá que uma vez três maus Companheiros tentaram um atalho e se deram mal. No fim das contas, o problema nunca foi a tecnologia. O problema é a escolha de não percorrer o caminho que se propôs a trilhar. Afinal de contas, não foi para isso que entramos para a Maçonaria?
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A∴R∴L∴S∴ Gralha Azul, nº 2514 - Benfeitora da Ordem
REAA, GOB/PR

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