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A MAÇONARIA REGULAR E O PROBLEMA DA INICIAÇÃO DE MULHERES

A revolução feminina! Assim poderia chamar-se esse acontecimento fundamental para a história do mundo, transcendendo a todos os progressos técnicos, e que a nossa época realizou. A Franco-Maçonaria, por sua fidelidade ao princípio de masculinidade, não teria permanecido aquém da sociedade civil? Não existiria entre elas uma defasagem? Quais seriam as causas? Como será a Franco-Maçonaria do ano 2000? (MELLOR, 1976, p.80)

Esta interrogação, formulada por Alec Mellor há cinquenta anos em seu livro Os Grandes Problemas da Atual Franco-Maçonaria (1976), permanece atual, não apenas pelo avanço da condição das mulheres em nossa sociedade, mas porque obriga a Maçonaria a revisitar seus fundamentos à luz de um mundo em constante transformação.

Dedicando um capítulo inteiro de seu livro ao tema das mulheres na Maçonaria, Mellor parte do reconhecimento inegável da revolução feminina, que hoje é estrutural, consolidada e irreversível. O ingresso das mulheres na vida política, intelectual e econômica é resultado da conquista feminina, e redefiniu a paisagem social contemporânea. Mellor observa também que essas mudanças ocorreram rapidamente e, de certa forma, critica a estrutura da Maçonaria Regular por não ter acompanhado nem se adequado a tais mudanças, criando o que ele chama de “defasagem”. 

Essa defasagem, segundo o autor, é um descompasso entre o que acontece na sociedade civil e o que é praticado dentro da Maçonaria. Enquanto a sociedade evoluiu e passou a incluir mulheres plenamente em todos os espaços, a Maçonaria Regular continuou sendo uma ordem exclusivamente masculina. Contudo, é importante que situemos a sociedade civil e a Maçonaria Regular no contexto institucional, pois elas têm naturezas distintas.

A sociedade civil tem como natureza a busca pela universalidade e pela igualdade jurídica, sendo regida por princípios democráticos, pela participação política e pela inclusão de todos os cidadãos em seus espaços de decisão e representação. Seu fundamento é o contrato social, que se renova constantemente à medida que novos direitos são reconhecidos e incorporados.

Já a Maçonaria Regular, por sua vez, não se constitui como sociedade civil, mas como ordem iniciática. Sua natureza é simbólica, filosófica e ritualística, voltada para a transmissão de ensinamentos por meio símbolos e alegorias. O ingresso em seus quadros não se dá por critérios de cidadania, mas por adesão a uma tradição iniciática específica, que foi concebida historicamente como masculina. Essa configuração não pretende refletir a totalidade da sociedade, mas preservar uma identidade própria, coerente com sua linguagem simbólica e seus rituais.

Sendo assim, podemos dizer que a base do problema não está na moral ou na prática social, mas na estrutura mítica e simbólica adotada pela Maçonaria Regular. Quando utilizamos o termo “mítico” não nos referimos a mitos no sentido vulgar de fábulas ou ilusões. Aqui o termo designa o conjunto de arquétipos, narrativas e imagens fundadoras que dão sentido à experiência maçônica. Segundo Mellor, trata-se de uma linguagem que opera por meio de símbolos herdados da tradição ocidental, em especial da matriz cristã esotérica, nos quais o masculino foi associado ao Logos, à ação da Luz, enquanto o feminino foi vinculado à matéria, à receptividade, ao que recebe a forma, porém, não como figura inferior, mas como parte de uma polaridade simbólica, uma dualidade fundamental. Essa construção não é fruto de uma decisão moral ou política, mas advém de práticas que se consolidaram historicamente e que sustentam a coesão da simbologia maçônica até os dias de hoje.

Para os leigos não conhecedores dos símbolos e alegorias maçônicos, geralmente é difícil aceitar isto. Porém, reconhecer essa construção simbólica sobre a qual se apoia a Maçonaria Regular não significa negar os direitos das mulheres ou subestimar suas capacidades. Simplesmente significa entender que a Maçonaria Regular foi concebida dentro de uma gramática simbólica masculina. E este é o ponto central da questão, pois uma vez que a exclusividade masculina tem origem na forma como a simbologia maçônica foi concebida, sua revisão não é uma questão meramente administrativa, como alguns podem pensar. Pedro Juk, em comentário realizado em blog da internet em 2011, escreve:

(...) há que se admitir que se em pleno Século XXI a igualdade dos sexos é admitida em todos os países civilizados, a Franco-maçonaria continua, a despeito dos paliativos, sendo uma organização puramente masculina, isso porque essa é simplesmente a sua natureza. Transpondo a arte de construir para o plano moral, a Maçonaria permanece viril, exatamente como nos tempos operativos. Essa natureza particular pela qual ela se distingue das sociedades civis é, sem dúvida, muitas vezes considerada arcaica, porém está longe de ser verdade se definir o antiquado como um mal e que toda novidade seja um progresso. (JUK, 2011)

Também é possível analisarmos a questão da não aceitação de mulheres na Maçonaria Regular pelo viés institucional. A Maçonaria Regular, aquela reconhecida pela tradição inglesa da Grande Loja da Inglaterra, não admite mulheres. Esse modelo de regularidade é baseado em critérios específicos como a crença em um Ser Supremo, a presença do Livro da Lei no templo, os Landmarks e, entre outros pontos, a exigência de que o iniciado seja homem. Este é o parâmetro que rege o GOB, a CMSB e a COMAB, que compõem a Maçonaria Regular no Brasil.

A característica da exclusividade masculina na Maçonaria Regular é considerada irreformável, pois se insere no âmbito dos chamados Landmarks, cuja essência é ser imemorial (JUK, 2011). As Antigas Constituições afirmam que “nenhum homem, nem nenhum grupo de outros homens tem o poder de modificar um Landmark”. Assim, caso em algum futuro remoto houvesse uma alteração nesse ponto, a organização resultante já não poderia ser identificada como a Franco-maçonaria em sua forma tradicional. Embora propostas de mudança surjam ocasionalmente, a tradição, o uso e o costume que sustentam a Ordem não podem ser modificados apenas em razão da evolução da sociedade ou da vontade de determinados membros.

Esses princípios não nasceram exatamente com a Moderna Maçonaria. Nicola Aslan em sua obra A Maçonaria Operativa, lembra que embora os estatutos das corporações operativas proibissem formalmente a presença de mulheres, havia algumas exceções, pois viúvas e filhas de mestres pedreiros podiam dar continuidade à atividade do pai ou do marido falecido. Registros históricos do século XIII em Paris apontam para mulheres exercendo funções como mortellières e escultoras de pedra (ASLAN, 1975, p. 99). A própria ideia de confrarias e corporações não era imune à participação feminina, ainda que marginal. Isso indica que a origem da exclusão não está no ofício em si, mas em um processo posterior de estruturação institucional da Ordem.

Jean Palou, ao estudar a história das Lojas de Adoção, forma institucional criada no século XVIII para permitir a iniciação de mulheres em ritos próprios, mostra que havia organização, hierarquia, graus e rituais adaptados ao universo simbólico feminino. As lojas femininas de adoção, como a La Candeur, possuíam Grã-Mestra, rituais próprios e estatutos bem definidos. Em 1817, por exemplo, havia normas específicas para a iniciação feminina, como a proibição de mulheres grávidas, idade mínima de 20 anos, necessidade de proposta prévia e votação secreta (PALOU, 1998, p. 245-247). A existência dessas lojas indica que, em determinados contextos históricos, houve experiências organizadas de iniciação feminina sob influência masculina, ainda que restritas e desprovidas de reconhecimento pleno. A recusa posterior em integrar essas estruturas à organização regular revela mais uma escolha institucional do que um impedimento iniciático absoluto.

Segundo estes autores, portanto, a tese de que a Maçonaria sempre foi essencialmente masculina não se sustenta, pois há estudos que demonstram que as mulheres estavam presentes nas corporações operativas medievais.

A pergunta de Alec Mellor “Como será a Franco-Maçonaria do ano 2000?” continua a provocar reflexão. Com o passar do tempo, o que se verifica é que a Maçonaria Regular manteve sua forma tradicional, reafirmando a exclusividade masculina não por inércia ou preconceito, mas por coerência com o sistema simbólico que a constitui. Conforme observa Pedro Juk, a Maçonaria, tal como foi concebida e transmitida, possui uma natureza que não comporta certas alterações sem perder sua própria identidade. A defasagem apontada por Mellor entre sociedade civil e Maçonaria, nesse sentido, não é um atraso, mas uma diferença de fundamento.

A linguagem iniciática da Maçonaria Regular, entendida como sistema moral e filosófico que confere identidade à Ordem, demanda continuidade e lealdade às formas que a estruturam. Este sistema é uma forma própria que só preserva sua força se for mantida íntegra. Por isso, pensar a Maçonaria Regular em função das mudanças sociais externas, em alguns casos, é equivocar-se quanto à sua natureza, pois ela não se molda às circunstâncias, mas se sustenta na permanência de seus símbolos. A alteração de elementos essenciais desse sistema seria uma ruptura com aquilo que a define, resultando em algo distinto da própria Maçonaria.

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M∴M∴ Dyogner do Valle Mildemberger
A∴R∴L∴S∴ Gralha Azul, nº 2514 - Benfeitora da Ordem
REAA/GOB-PR

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Referências:

ASLAN, Nicola. A Maçonaria Operativa. Rio de Janeiro: Editora Aurora, 1979.

JUK, Pedro. As Mulheres na Maçonaria. Blog Iblanchier, 2011. Disponível em: https://iblanchier3.blogspot.com/2011/09/as-mulher-na-maconaria.html. Acesso em 10 jan. 2026.

MELLOR, Allec. Os Grandes Problemas da Atual Franco-maçonaria. Tradução de Yone Canônico Micalli. São Paulo: Editora Pensamento, 1989.

PALOU, Jean. A Franco-maçonaria Simbólica e Iniciática. Tradução de Edilson Alkmin Cunha. São Paulo: Editora Pensamento, 2001. 

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