As expressões Câmara do Meio e Escada em Caracol são corruptelas de expressões encontradas no Primeiro Livro de Reis:
A porta da câmara intermediária ficava no lado direito da casa; e por escadas em caracol se subia para a câmara intermediária, e da intermediária para a terceira. I Reis, 6,8.
O texto em I Reis traz, de modo sucinto, algumas características básicas da arquitetura do Templo erigido pelo Rei Salomão para o Senhor. Embora essa citação da câmara e da escada apareça somente neste versículo entre todo o texto bíblico, elas têm relevante importância no simbolismo maçônico, especialmente no segundo e no terceiro grau.
A partir deste fragmento de natureza elementar, estruturou-se uma construção alegórica de singular e refinado significado. No entanto, cabe observar que a alegoria formada pela Escada em Caracol, pelo Templo de Jerusalém e pela Câmara do Meio aplica-se apenas ao simbolismo da Moderna Maçonaria. Isso ocorre porque esse conjunto de símbolos e a Lenda de Hiram não seguem exatamente o que está descrito no texto da Bíblia.
Na Moderna Maçonaria, a Escada em Caracol é alegoria do grau de Companheiro, e a Câmara do Meio é um elemento relativo ao grau de Mestre. Entretanto, ambas precisam ser analisadas em conjunto para que as coisas façam sentido. Essa segmentação da alegoria Câmara-Escada ocorreu porque o grau de Mestre surgiu muito depois do grau de Companheiro (mais precisamente em 1725 em Londres, vindo depois a ser oficialmente instituído em 1738 na segunda Constituição de Anderson) e carregou para si parte do simbolismo do grau de Companheiro.
Grande parte dos fundamentos da Moderna Maçonaria deriva de ideias extraídas das antigas guildas de pedreiros medievais, do Iluminismo e dos ensinamentos judaico-cristãos. Por isso, não é difícil entender que a simbologia maçônica do Templo de Jerusalém tem origem na Bíblia Hebraica.
De acordo com a Bíblia Hebraica, o Primeiro Templo, também conhecido como Templo do Rei Salomão, ficava em Jerusalém e foi finalizado por volta de 957 a.C. O pai de Salomão, o rei Davi, recebeu de Deus a orientação para construir um grande templo que pudesse guardar a Arca da Aliança, um cofre decorado que continha as tábuas com os Dez Mandamentos. Salomão, como rei, ordenou a construção do templo em obediência ao desejo de Deus, mobilizando artesãos e pedreiros para a obra.
Com o passar do tempo, os maçons adotaram a construção do Templo como um símbolo da sua própria evolução pessoal. O Templo de Salomão demonstra que grandes objetivos são alcançados por meio da cooperação e do uso das ferramentas corretas. Assim, a Maçonaria utiliza essa construção como uma metáfora para o crescimento interior e a busca pelo conhecimento. Ao seguir os ensinamentos dos três primeiros graus, o maçom constrói seu próprio templo espiritual e busca o autoaperfeiçoamento. Em resumo, nos três primeiros graus, a arquitetura do templo representa a trajetória de desenvolvimento seguida por todos os maçons.
A Escada em Caracol maçônica é um símbolo fundamental no grau de Companheiro da Maçonaria, referindo-se à ascensão alegórica à Câmara do Meio, tendo como eixo a seguinte lenda.
Na construção do Templo de Jerusalém, foi empregado um número imenso de operários e estes eram, na maior parte, divididos entre Aprendizes e Companheiros. Os aprendizes ganhavam semanalmente uma ração de trigo, vinho e azeite, e os Companheiros eram pagos em dinheiro, que recebiam na Câmara do Meio do Templo.
Entravam na Câmara através de um pórtico, a ao passarem por ele, sua atenção era particularmente despertada por duas grandes colunas. A da esquerda, denominada B∴, significa Força, e a da direta, chamada J∴, significa Estabilidade. Quando reunidas querem dizer: ELE estabelecerá com Força e Beleza. Depois de passarem por essas duas colunas, os Companheiros chegavam ao pé de uma Escada em Caracol, cuja ascensão era bloqueada pelo 2º Vigilante. Para prosseguirem, era necessário que dessem uma palavra de passe ao 2º Vigilante. Se a palavra estivesse correta, ele os permitia a passagem.
Os Companheiros, então, subiam a Escada em Caracol, constituída por 3, 5 e 7 ou mais degraus. Após atingirem o topo da Escada, os Companheiros encontravam-se diante da Câmara do Meio, cuja porta estava novamente bloqueada pelo 2º Vigilante. Depois de darem o sinal, o toque, palavras e outras provas convincentes de que eram realmente Companheiros, o 2º Vigilante os permitia a passagem.
Essa é, em resumo, a lenda que serve de base para a alegoria da Câmara do Meio e da Escada em Caracol. Agora, vamos entender melhor o que tudo isso significa.
Segundo o relato bíblico, a Escada em Caracol ficava no lado direito da “casa” (Templo). Em um templo maçônico, o lado direito, do ponto de vista do átrio, corresponde ao Sul, ao Meio-dia. Esse símbolo é muito importante porque essa escada lateral que leva à Câmara representa os desafios e os caminhos tortuosos que o maçom precisa enfrentar para chegar à Câmara do Meio, que por usa vez, simboliza o seu aperfeiçoamento (ou o Santo dos Santos do Templo de Jerusalém).
Como a Escada em Caracol representa o grau de Companheiro e a Câmara do Meio simboliza o grau de Mestre, fica claro que essa dupla faz uma ponte entre o meio-dia, que representa a juventude, e o fim da jornada à meia-noite, que marca a maturidade e a morte (o momento em que o mestre chega ao Oriente).
Essa ligação entre a lenda da construção do Templo de Jerusalém e a Loja (mais especificamente a parte do Oriente) explica por que apenas o Mestre pode acessar essa área com a Loja aberta. Isso acontece porque ele é o único que já alcançou a plenitude dentro do simbolismo da Maçonaria.
Essa alegoria também explica por que os Companheiros sempre ocupam a Coluna do Sul quando estão em Loja, pois, como já visto, de acordo com o texto bíblico que deu origem a esta alegoria, a porta que leva à Câmara do Meio (que representa a Loja de Mestre) fica simbolicamente localizada no Sul. O alcance a essa Câmara depende do conhecimento que o iniciado precisa obter para compreender a Árvore da Vida. É por esse motivo que surgiu a senha de reconhecimento A A∴ M∴ É C∴.
De certa forma, a Escada em Caracol funciona como uma ponte entre o básico, o intermediário e o espiritual. Na prática, essa alegoria mostra o caminho e a evolução do maçom até atingir a plenitude.
Na lenda, a Escada em Caracol é constituída por 3, 5 e 7 degraus. Os três primeiros degraus aludem ao grau de Aprendiz. Simbolicamente, são 3 degraus porque três governam a Loja, cinco a constituem e sete ou mais a tornam perfeita. Os três que a governam são o Venerável Mestre e os dois Vigilantes (as Luzes). Os cinco que a constituem são os três que a governam mais duas Dignidades: o Orador e o Secretário. E os sete que a tornam perfeita são os cinco que a constituem mais dois Oficiais: o Cobridor Interno e o Mestre de Cerimônias.
Pode-se ainda, dizer que três governam uma Loja porque três foram os mestres que presidiram a construção do Templo de Jerusalém: Salomão, rei de Israel, Hiram, rei de Tiro, e Hiram Abif, o artíficie que o adornou. Cinco a constituem em consideração às cinco nobres ordens da Arquitetura: Jônica, Dórica, Coríntia, Toscana e Compósita. Este número também remete aos cinco sentidos (visão, audição, tato, olfato e paladar). Sete a tornam perfeita em alusão às Sete Artes e Ciências Liberais da Antiguidade: Gramática, Retórica, Lógica, Aritmética, Geometria, Música e Astronomia.
Embora não apareçam na fase de Aprendiz, os três primeiros degraus representam o período de aperfeiçoamento inicial (focado na intuição). Depois, o Companheiro entra na fase de análise e se prepara para o terceiro grau. Nesse estágio, ele estuda os mistérios da Estrela Flamejante, as cinco ordens de arquitetura e os cinco sentidos. Por fim, após entender o significado da Palavra de Passe, o Companheiro mergulha no estudo das sete Artes e Ciências Liberais.
Por isso, não dá para falar da Câmara do Meio sem levar em conta sua ligação histórica e iniciática com o grau de Companheiro, que é o penúltimo estágio da evolução. O caminho começa na entrada ao Sul e segue até a Câmara do Meio, onde fica a Árvore da Vida. É nesse local que o Mestre pode, com toda a certeza, afirmar: “A A∴ M∴ É C∴”.
Foi com a criação do grau de Mestre e da Lenda do Terceiro Grau, ambientada no lendário Templo de Jerusalém, que surgiu a base doutrinária e filosófica da Maçonaria Moderna. A partir daí, a evolução do ser humano passou a ser comparada à construção de um "templo interior", uma obra perfeita dedicada a Deus. Por isso, existe uma ligação profunda entre os três primeiros graus. Eles representam uma jornada que começa no Ocidente e segue em direção à Luz do Oriente, passando pelas etapas de Intuição, Análise e Síntese.
De forma geral, o grau de Mestre Maçom marca a fase final da caminhada iniciática. Por isso, quando a Loja se reúne em Câmara do Meio e encena a Lenda de Hiram, o clima é de profunda tristeza pelo seu desaparecimento. Nessa história, elementos como o Sol e o inverno são fundamentais para construir todo o significado da lenda. Daí a decoração estilizada da Câmara do Meio.
No que diz respeito ao sentido filosófico dessa alegoria, o ponto principal é que a semente precisa morrer para poder renascer. Existe aqui um toque místico que vem dos antigos cultos ao sol e dos ciclos da natureza: se uma semente cai no chão e não morre, ela é esquecida; mas, se ela morre, está destinada a dar bons frutos.
Em termos gerais, esse símbolo fala sobre como a vida humana é passageira e foca naquilo que deixamos para trás. Ao final da nossa jornada, seremos avaliados pelo que construímos. O corpo volta à terra e o espírito retorna ao Criador, mas o que fizemos em vida permanece na memória das futuras gerações. No fim das contas, a colheita depende do que foi plantado. A eternidade não está na pessoa, mas na obra que ela deixa.
Para entender o real significado dos símbolos e alegorias da Maçonaria, precisamos ter em mente que o seu objetivo principal é a busca pela verdade divina. Tudo o mais na instituição fica em segundo plano diante desse propósito.
Desde o primeiro passo como Aprendiz até o momento em que alcança a iluminação total, o maçom é um eterno investigador, um trabalhador dedicado cuja maior recompensa é encontrar a Verdade. Todas as cerimônias e tradições da Ordem existem para levar a esse destino final.
Se buscamos a "luz", estamos buscando a sabedoria e a verdade. Se procuramos uma "palavra", ela nada mais é do que o símbolo dessa verdade. E quando falamos da "perda" de algo prometido, isso representa a nossa própria limitação humana em compreender totalmente a verdade divina. Por fim, o uso de "substitutos" para essa perda é uma forma de nos ensinar que, nesta vida, o ser humano consegue apenas chegar perto da verdade absoluta, sem jamais alcançá-la por completo.
Quando o Aprendiz atravessa o pórtico do templo, ele dá início à sua jornada na Maçonaria. No entanto, esse primeiro grau, assim como acontecia nos rituais de iniciação da Antiguidade, funciona apenas como uma fase de preparação e purificação para o que vem adiante. Nesse estágio, o Aprendiz é como uma criança dentro da instituição. Os ensinamentos que ele recebe têm um objetivo de limpar o coração e preparar a mente para a luz e o conhecimento que serão apresentados nos próximos degraus da sua evolução.
Como Companheiro Maçom, ele sobe mais um degrau em sua jornada. Como esse grau simboliza a juventude, é nesta fase que começa, de fato, a formação intelectual. Exatamente no limite entre o Pórtico e o Santuário, onde a infância termina e a vida adulta começa, ele se depara com uma Escada em Caracol. Esse símbolo de disciplina e aprendizado é um convite para subir e iniciar o verdadeiro trabalho maçônico: uma busca gloriosa, porém desafiadora, pela verdade divina.
A Escada em Caracol surge logo após o candidato passar pelo Pórtico e cruzar as colunas da Força e da Estabilidade. Isso serve para ensinar que, ao deixar para trás a infância e ingressar na maturidade, o seu primeiro dever é a tarefa constante de melhorar a si mesmo. Ele não pode ficar parado se quiser honrar seu propósito; sua natureza exige que ele suba degrau por degrau até o topo, onde os tesouros do conhecimento o esperam.
Em suma, a alegoria da Câmara do Meio e da Escada em Caracol nos ensina que a evolução humana é uma construção contínua e gradual. Através dessa subida simbólica, o maçom compreende que o verdadeiro aprimoramento exige perseverança para superar os desafios da vida, transformando o conhecimento técnico em sabedoria espiritual. Ao final dessa jornada, fica a lição de que nossa existência física é passageira, mas a obra que realizamos e o exemplo que deixamos permanecem vivos. Assim, a eternidade não pertence ao operário, mas sim à perfeição do "templo interior" dedicado ao bem comum e ao Criador, provando que a colheita será sempre o reflexo fiel da nossa semeadura.
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A∴R∴L∴S∴ Gralha Azul, nº 2514 - Benfeitora da Ordem
R∴E∴A∴A∴, GOB - Or∴ São José dos Pinhais, PR






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