A Câmara de Reflexão é o espaço onde, nos ritos que a possuem, o candidato é recolhido antes de sua admissão no templo na ocasião de sua iniciação. Ela se constitui de um ambiente austero reduzido ao silêncio e a penumbra, onde destacam-se, além dos símbolos presentes na mesa à qual se senta o candidato, algumas sentenças lúgubres gravadas nas paredes. Embora haja variações entre ritos e potências maçônicas, essas sentenças costumam ser as seguintes:
Nosce te Ipsum — Conhece-te a ti mesmo
Orgullo — orgulho
Na Câmara do Rito Escocês Antigo e Aceito do GOB, é mister que exista gravado nas paredes a seguinte exortação:
Se tens receio de que se descubram os teus defeitos, não estarás bem entre nós
Se fores dissimulado, serás descoberto
Se és apegado às distinções mundanas, retira-te; nós aqui não as conhecemos
Se tens medo, não vás adiante
Se queres bem empregar a sua vida, pensa na morte
O objetivo é que, ao ler estas advertências, o candidato reflita sobre a curiosidade, o medo e, sobretudo, a própria finitude. Se bem compreendidas, essas frases mostrarão ao candidato que é necessário que ele renuncie às máscaras sociais e às ilusões da vida profana como condições para ele permanecer e iniciar o processo de transformação moral a que doravante deverá se dedicar.
Este texto analisa cada uma dessas sentenças, buscando colocá-las como pilares da desconstrução necessária para o candidato que pretende verdadeiramente morrer para os vícios e nascer para a virtude. Analisemos, a seguir, cada uma delas.
Se a curiosidade aqui te conduz, retira-te — A curiosidade, segundo a filosofia, é um impulso superficial, muitas vezes ligado ao desejo de acumular informações externas, segredos ou títulos para satisfazer o ego ou a vida social. Então, na Câmara de Reflexão, a frase é uma exortação ao candidato, e marca a fronteira entre o que é profano e o que é reservado apenas aos iniciados. A Maçonaria não é lugar de curioso. Se o motivo da presença do candidato é apenas saber o que se passa “lá dentro”, ele está no lugar errado, pois o verdadeiro mistério não é algo que se lê, mas algo que se vive e se sente. O Conhecimento que a Maçonaria oferece não é, portanto, um entretenimento, por isso a advertência: retira-te. Uma vez que se “vê” a luz, a responsabilidade moral sobre as próprias ações aumenta, pois passará a carregar o peso do compromisso com o autoaperfeiçoamento. É preciso ter honestidade intelectual para conhecer o que está além daquela porta, pois o candidato precisa provar que não se importa apenas em conhecer, mas em ser.
Se tens receio de que se descubram os teus defeitos, não estarás bem entre nós — Filosoficamente, o trabalho maçônico é simbolizado pelo incessante talhar da Pedra Bruta para transformá-la em Pedra Cúbica. Aquele que não admite ter defeitos (arestas), não tem no que trabalhar. Além disso, o medo de que eles sejam descobertos é uma resistência à verdade. Ora, sendo o maçom um pedreiro social, o defeito não é motivo de vergonha, mas sim a sua matéria-prima. Na vida profana, vivemos sob diversas máscaras, de modo que nunca somos nós mesmos de verdade. Agimos conforme o contexto e o ambiente e muitas vezes essa máscara é usada para projetar uma perfeição inexistente. Se o indivíduo preza mais pela sua imagem pública (as “distinções mundanas”) do que sua essência real, ele viverá em constante estado de vigilância e desconforto “entre nós”. Como o caminho do aperfeiçoamento raramente é percorrido de forma isolada, ele “não estará bem entre nós” porque em uma fraternidade cujo mote é erguer templos à virtude, os defeitos de um membro tornam-se visíveis pela comparação com o ideal buscado por todos. Portanto, o candidato (e todo maçom, na verdade) deve aceitar a vulnerabilidade, pois reconhecer um defeito perante os pares é o primeiro ato de coragem necessário para superá-lo. Sendo assim, essa frase é um encorajamento à Humildade, porque a admissão na Ordem não é um prêmio para os perfeitos, mas uma oficina para os imperfeitos que são honestos. Aquele que teme o julgamento ou a descoberta de suas sombras, está preso à vaidade. Estar “bem entre nós” significa sentir-se confortável na própria imperfeição enquanto se trabalha para corrigi-la, tendo em vista que todos os que estão ao lado estão empenhados na mesma tarefa.
Se fores dissimulado, serás descoberto — A dissimulação é uma tentativa de projetar uma virtude que não se possui ou de esconder intenções escusas sob um manto de retidão. Vemos, então, que enquanto as duas frases anteriores dependem da percepção do candidato, esta afirma que a estrutura da Ordem possui um mecanismo inerente de revelação da verdade. Como a dissimulação exige um esforço constante para ser mantida, ela gera desgaste, e em um ambiente voltado para a busca da verdade como a Maçonaria, essa máscara cai devido à pressão da convivência com os irmãos e com o rigor moral exigido para ser maçom. Podemos dizer que ser maçom é ser um constante buscador da Verdade, ou seja, da Luz. Filosoficamente, luz é aquilo que torna as coisas visíveis em sua essência. Sendo assim, se o objetivo da Maçonaria é iluminar a consciência, qualquer elemento “obscuro” ou oculto (a dissimulação) será realçado pelo contraste. Na Alquimia, os elementos impuros são separados dos puros através do calor e da luz. Do mesmo modo, o dissimulado é descoberto pela sua própria incapacidade de brilhar com a mesma intensidade que os outros. A frase sugere que existe uma “justiça natural” no caminho da grande iniciação. Quem entra com segundas intenções (políticas, financeiras ou de vaidade) acaba se sentindo um elemento estranho na Ordem, e esse desconforto acaba por revelar a sua natureza. A Verdade é soberana.
Se és apegado às distinções mundanas, retira-te; nós aqui, não as conhecemos — Na vida profana, a identidade de um indivíduo costuma ser construída sobre camadas externas como o cargo na empresa, a conta bancária, o sobrenome ou os títulos acadêmicos. Essas são as “distinções mundanas”. Na Maçonaria, essas distinções são irrelevantes, pois elas não definem a essência do homem. Quando entram no templo, doutor e operário são apenas dois homens em busca da luz. Portanto, embora existam hierarquias funcionais na sociedade, perante a moral e a morte somos todos iguais. Aquele que é apegado a essas distinções, não conseguirá reconhecer a grandeza no irmão que não possua os mesmos títulos. Filosoficamente, se alguém se sente superior por causa de sua posição social, essa pessoa já não pode aprender nada de novo, pois o seu “copo está cheio” de si mesma. Por isso, a Maçonaria não funciona para quem não consegue ser humilde, já que ali a nobreza reconhecida é a do caráter e a única riqueza é a da virtude. Se o candidato espera ser tratado com deferência por causa de seu status externo, ele criará um abismo entre si e seus futuros irmãos. Então, para que uma verdadeira fraternidade exista, essas barreiras artificiais devem ser removidas. O pórtico do templo é baixo; para passar por ele é preciso inclinar a cabeça.
Se tens medo, não vás adiante — o medo de que se fala aqui, não é o medo biológico, instintivo, aquele com o qual estamos familiarizados. É mais adequado dizer que se trata da resistência da alma diante da mudança irreversível que se avizinha. É um teste sobre a natureza da vontade. Ir adiante significa aceitar que, após cruzar o limite, o indivíduo nunca mais verá o mundo com os mesmos olhos. Sendo a iniciação, por definição, a morte simbólica para os vícios e o renascimento de um novo homem para a virtude, então o medo é o temor de perder a identidade antiga. “Não vás adiante” serve para questionar se o candidato possui a serenidade necessária ou se ele é escravo de suas ansiedades. Ele irá hesitar se o temor de perder suas certezas for maior do que o desejo de encontrar a verdade. É preciso ter coragem, ter domínio sobre seus medos em favor de um bem maior. Na Câmara de Reflexão, o candidato está sozinho com seus pensamentos, símbolos de morte e silêncio. Se ele teme o silêncio e a própria companhia, então ele teme enfrentar sua própria sombra. “Se tens medo, não vás adiante” é a prova da Persistência. A Maçonaria busca homens livres, e ninguém é verdadeiramente livre e for escravo dos seus próprios temores.
Se queres bem empregar a tua vida, pensa na morte — Memento Mori: lembra-te de que és mortal. A morte é o que dá urgência à vida. Se fôssemos imortais, poderíamos adiar nossa evolução indefinidamente. Pensar na morte, obriga o candidato a se questionar: “Se eu morresse hoje, o que teria deixado para o mundo?”. Diante da inevitabilidade do fim, o que importa mesmo é a virtude e o legado moral; isso impulsiona o trabalho constante na Pedra Bruta. Ser iniciado na Maçonaria, é um processo de “morrer em vida” para os vícios, permitindo que a consciência desperte para uma realidade mais ampla. “Bem empregar a tua vida” significa dedicar o tempo restante à construção do Templo Social e à prática da caridade e da fraternidade. Pensar na morte pode transformar o egoísmo em serviço. Se a vida é curta, cada ação deve ser justa e reta. “O mortal que aqui me vês, nesse estado em que hoje estou, eu já fui como és, um dia serás como hoje sou”. A consciência do fim torna cada encontro com o próximo uma oportunidade única de praticar o bem, pois “um dia serás como hoje sou”. A morte iguala a todos (O mortal que aqui me vês...), é a única certeza democrática: ela não poupa reis, nem mendigos. A única saída digna é o autoconhecimento (Nosce te Ipsum) e o maior obstáculo nessa busca é a própria soberba e o controle do ego (Orgullo).
Embora analisadas individualmente, é possível notar que existe uma progressão lógica entre as frases para guiar o pensamento do candidato. Primeiro, testa-se se o seu interesse é legítimo (curiosidade); em seguida, a sua integridade (dissimulação e defeitos); depois, o despojamento dos egos (distinções mundanas) e, por fim, a têmpera do espírito (medo e morte). As frases formam uma conexão entre o autoconhecimento (Nosce te Ipsum), a vigilância sobre a soberba (Orgullo) e a consciência da finitude (Memento Mori), mostrando que a Maçonaria não é um refúgio para aqueles que buscam prestígio, muito pelo contrário, é um laboratório para quem busca a Verdade.
Nesse sentido, a “voz das paredes” poderia ser entendida como a consciência do próprio candidato. Aquele que atravessa o umbral do Templo após essa imersão não leva consigo os títulos ou as certezas que possuía ao entrar; leva, sim, o peso da responsabilidade e a clareza de que a vida, para ser bem empregada, deve ser lapidada diariamente sob a sombra da imortalidade de suas obras. “O pó volte a terra, como o era, e o espírito volte a Deus, que o deu. Vaidade de vaidades, tudo é vaidade”. Resta apenas a retidão das ações e o desbastar da Pedra Bruta.
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M∴M∴ da A∴R∴L∴S∴ Gralha Azul, nº 2514 - REAA
Or∴ São José dos Pinhais, PR

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