Este artigo investiga, entre maçons participantes do estudo, como hábitos de leitura maçônica se relacionam com percepções de conhecimento, barreiras ao estudo e disposição para atividades de instrução, tomando como referência o ensaio de Albert G. Mackey sobre “maçons que leem e maçons que não leem”. Foi reali-zado um levantamento por questionário (31 perguntas), com análise descritiva das respostas e exame temá-tico de uma questão aberta. Os resultados apontam valorização declarada do conhecimento e alta disposi-ção para estudo em grupo, coexistindo com barreiras de tempo, rotina e cansaço, além de predominância de conteúdos online e textos curtos. Conclui-se que a tese de Mackey encontra aderência parcial, sustentando debate e ações de instrução em Loja.
Palavras-chave:Maçonaria; leitura maçônica; instrução maçônica; hábitos de estudo; questionário.
Introdução
Este artigo nasceu após a leitura do clássico texto de Albert G. Mackey publicado em 1874 e intitulado de Maçons que Leem e Maçons que Não Leem (título original em inglês Reading Masons & Masons Who Do Not Read). No texto, Mackey chama atenção para um fenômeno que ele considera paradoxal: enquanto seria impensável um profissional atuar com competência sem estudar os fundamentos de sua área, seria relativamente comum encontrar maçons que participam da vida da Ordem, e por vezes alcançam graus e posições de destaque, sem familiaridade suficiente com história, símbolos e finalidades da Maçonaria. Para o autor, a raiz desse problema estaria na suposição de que a iniciação e a frequência às sessões seriam, por si só, suficientes para produzir conhecimento maçônico, dispensando leitura e investigação posterior.
Além do tom crítico, a força do texto está no modo como ele organiza o diagnóstico em uma espécie de tipologia. Mackey descreve (i) homens que ingressam por motivos utilitários e se tornam indiferentes; (ii) homens motivados por desejo real de conhecimento, que buscam livros, periódicos e instrução; e (iii) um grupo intermediário, numeroso, segundo ele, que ingressa com boas intenções, mas não as concretiza, mantendo baixa dedicação a estudo, ainda que demonstre ambição por graus e cargos. A partir disso, o autor defende que a vitalidade e o futuro da Maçonaria dependeriam do nível de inteligência, instrução e compromisso intelectual de seus membros.
A leitura desse ensaio motivou a seguinte questão: as impressões de Mackey encontram respaldo quando observadas por meio de dados? Em outras palavras, seria possível identificar, entre maçons contemporâneos, padrões que aproximem hábitos de leitura e estudo de percepções de conhecimento, preferências formativas, barreiras práticas e disposição para engajamento instrucional?
Com esse objetivo, realizou-se um levantamento por questionário, buscando descrever, entre maçons participantes do estudo:
- frequência e intensidade de leitura maçônica;
- barreiras e formatos preferidos de estudo;
- autoavaliações e itens objetivos de conhecimento geral;
- atitudes sobre suficiência da iniciação e da presença; e
- disposições relacionadas a progressão em graus/cargos e participação em grupos de estudo.
O interesse central não foi julgar perfis individuais, mas oferecer uma base para instrução e debate, traduzindo o argumento ensaístico clássico de Mackey em indicadores observáveis.
A Tese de Mackey e a Questão do Estudo
Mackey argumenta que parte expressiva da Fraternidade tenderia a supor que iniciação e participação seriam suficientes para o “essencial” do conhecimento maçônico, dispensando leitura e pesquisa. Nesse panorama, ele descreve três perfis:
- ingressos por motivos utilitários e posterior indiferença;
- ingressos motivados por desejo real de conhecimento, com leitura e investigação contínuas;
- um grupo intermediário que entra com intenções adequadas, mas não as concretiza, frequentemente priorizando cargos/graus em detrimento do estudo.
Sem assumir que a crítica de Mackey seja universal, ela fornece um modelo interpretativo útil no qual a leitura e o estudo aparecem como parte da própria finalidade de formação da Ordem.
Metodologia
Realizou-se um levantamento por questionário com 180 participantes, composto por 31 perguntas, incluindo itens de perfil, motivação, hábitos de leitura, formatos preferidos, barreiras percebidas, autoavaliações de conhecimento, questões objetivas de conhecimento geral e uma questão aberta final.
As perguntas fechadas foram analisadas por frequências e percentuais. A questão aberta (Pergunta 31) foi utilizada para análise qualitativa por agrupamento temático (análise de conteúdo em nível descritivo), identificando padrões recorrentes nas respostas.
Vale ressaltar que a amostra é composta de respondentes voluntários, de modo que os resultados descrevem o grupo participante e subsidiam reflexão interna, sem pretensão de generalização estatística para toda a Maçonaria.
Resultados
1) Grau atual:
- Mestre 83,9%
- Companheiro 6,7%
- Aprendiz 9,4%
2) Participação em graus filosóficos:
- 63,3% afirmam participar
- 36,7% não
3) Tempo de Maçonaria:
- 16,1% — 0-2 anos
- 19,4% — 3-5 anos
- 16,1% — 6-10 anos
- 27,8% — 11-20 anos
- 20,6% — mais de 20 anos
4) Idade:
- 1,7% — 18-29 anos
- 8,9% — 30-39 anos
- 28,9% — 40-49 anos
- 31,1% — 50-59 anos
- 29,4% — 60 anos ou mais
5) Escolaridade:
- 0,6% — Fundamental
- 7,8% — Médio
- 30,6% — Superior
- 61,0% — Pós-graduação
6) Assiduidade (últimos 3 meses):
- 7,2% — 0-2 sessões
- 12,2% — 3-5 sessões
- 23,3% — 6-8 sessões
- 57,3% — 9 ou mais sessões
7) Potência:
- 62,8% - GOB
- 16,5% - Grandes Orientes COMAB
- 20,7% - Grandes Lojas CMSB
8) Localização da Loja:
- 35% - Curitiba
- 22,2% - Região metropolitana de Curitiba
- 42,8% - Outras regiões
9) Motivação principal para ingressar:
- 52,8% - conhecimento/instrução
- 25,0% - valores/tradição/ética
- 10,0% - convivência/fraternidade
- 7,8% - influência familiar/social
- 2,2% - networking
- 2,2% - outra
10) O que mais busca hoje na Maçonaria:
- 59,4% - conhecimento/instrução
- 32,2% - convivência/fraternidade
- 3,9% - beneficência/ações sociais
- 0,6% - atuação administrativa e/ou graus
- 3,9% - outra
11) Na afirmação “A iniciação e a frequência assídua às sessões, por si só, já entregam o essencial do conhecimento maçônico”, observou-se (escala de 1 = discordo totalmente a 5 = concordo totalmente):
- 1: 18,3%
- 2: 21,7%
- 3: 32,2%
- 4: 18,3%
- 5: 9,5%
12) Frequência de leitura maçônica:
- 1,1% - nunca
- 28,9% - raramente (mensal ou menos)
- 34,4% - semanal
- 17,8% - várias vezes por semana
- 17,8% - diariamente
13) Tempo semanal dedicado ao estudo maçônico:
- 3,9% - zero
- 36,7% - até 30 min
- 26,7% - 31 a 60 min
- 16,1% - 1 a 2 horas
- 16,7% - mais de 2 horas
14) Livros/obras lidos por completo no último ano:
- 24,4% - zero
- 18,9% - 1
- 32,8% - 2 ou 3
- 12,2% - 4 a 6
- 11,7% - 7 ou mais
15) O que mais lê (múltipla escolha, até 3):
- 57,8% - conteúdos online
- 52,2% - artigos curtos
- 51,1% - livros
- 48,3% - materiais de instrução
- 15,6% - revistas/periódicos
- 1,7% - outros
16) Gosto por leitura sobre Maçonaria (escala de 1 a 5):
- 1: 1,1%
- 2: 2,8%
- 3: 22,2%
- 4: 23,3%
- 5: 50,6%
17) Principal barreira para ler/estudar mais:
- 32,8% - cansaço/rotina
- 25,6% - falta de tempo
- 13,9% - falta de direcionamento do que ler
- 9,4% - falta de interesse
- 9,4% - falta de acesso/material
- 8,9% - outra
18) Formato preferido para estudar:
- 41,1% - livro físico
- 16,1% - palestras/aulas
- 13,9% - tempo de estudos da loja
- 13,3% - PDF/e-book
- 7,2% - debates com os irmãos
- 6,7% - artigos online
- 1,7% - outro
19) Autoavaliação: “Entendo bem a história e os propósitos da Ordem” (escala de 1 a 5):
- 1: 2,2%
- 2: 7,8%
- 3: 26,7%
- 4: 46,7%
- 5: 16,6%
20) Autoavaliação: “Eu consigo explicar o sentido geral dos símbolos e cerimônias em nível filosófico” (escala de 1 a 5):
- 1: 6,6%
- 2: 12,8%
- 3: 32,8%
- 4: 35,0%
- 5: 12,8%
21) Conhecimento objetivo: finalidade da Maçonaria:
- 3,4% - debate de ideias políticas e sociais
- 2,2% - ações de beneficência e ações sociais
- 1,1% - atividade predominantemente recreativa/social
- 93,3% - Aperfeiçoamento moral e formação de virtudes por símbolos e instrução
22) Conhecimento objetivo: local e data de nascimento da primeira potência maçônica:
- 85,6% - Londres, 1717
- 8,3% - Londres, 1725
- 3,9% - York, 1717
- 1,7% - Westminster, 1725
- 0,5% - York, 1758
23) Conhecimento objetivo: qual nome está associado a publicação de uma famosa enciclopédia maçônica:
- 47,2% - Albert G. Mackey
- 20,0% - Albert Pike
- 13,3% - Rizzardo Da Camino
- 10,6% - James Anderson
- 8,9% - William Preston
24) Autoavaliação: “Eu me sinto preparado para conduzir uma instrução básica sobre história e origem do meu rito sem consultar nenhum material” (escala de 1 a 5):
- 1: 18,9%
- 2: 18,9%
- 3: 33,9%
- 4: 14,4%
- 5: 13,9%
25) Autoavaliação: “quando entrei, eu tinha forte desejo de conhecimento” (escala de 1 a 5):
- 1: 0%
- 2: 3,9%
- 3: 10,0%
- 4: 26,7%
- 5: 59,4%
26) Autoavaliação: “tenho grande interesse em progredir em graus/cargos” (escala de 1 a 5):
- 1: 5,6%
- 2: 7,8%
- 3: 18,3%
- 4: 28,9%
- 5: 39,4%
27) Autoavaliação: “eu participo (ou participaria) de grupos de estudo/instrução” (escala de 1 a 5):
- 1: 3,9%
- 2: 7,2%
- 3: 22,2%
- 4: 26,7%
- 5: 40,0%
28) Autoavaliação: “falta de tempo me impede de ler mais” (escala de 1 a 5):
- 1: 13,9%
- 2: 12,8%
- 3: 30,0%
- 4: 23,3%
- 5: 20,0%
29) Autoavaliação: “falta de dinheiro/acesso dificulta obter livros/materiais” (escala de 1 a 5):
- 1: 28,9%
- 2: 22,8%
- 3: 31,7%
- 4: 12,8%
- 5: 3,8%
30) Avaliação: “a qualidade dos tempos de estudo/instrução das sessões da minha Loja é excelente” (escala de 1 a 5):
- 1: 11,1%
- 2: 13,3%
- 3: 28,9%
- 4: 25,0%
- 5: 21,7%
31) Pergunta aberta: o que mais incentiva um maçom a ler e estudar?
Discussão
As respostas obtidas no questionário se relacionam com o ensaio de Mackey em três pontos principais:
- Leitura existe, porém nem sempre com profundidade suficiente para sustentar instrução — a frequência de leitura mostra um contingente expressivo lendo ao menos semanalmente, porém o tempo semanal dedicado concentra-se em faixas curtas (até 60 minutos para parcela grande), e 43,3% leram 0 ou 1 livro no último ano. Ao mesmo tempo, a leitura ocorre em grande medida por conteúdos online e artigos curtos, o que pode favorecer contato frequente, porém fragmentado.
- A crença de que a iniciação e a presença assídua nas sessões por si só já são suficientes para instrução não é majoritária, mas é relevante — a questão 11 revelou dispersão: parte discorda, parte concorda, e um terço permanece neutro. Esse resultado é especialmente útil para debate, porque mostra que a tese criticada por Mackey (“a iniciação já traz o essencial”) ainda encontra eco em parcela do grupo, mesmo em uma amostra de alta assiduidade.
- Progressão em graus não aparecem como opostos, mas há uma falta de cultura de instrução — o interesse por progredir em graus/cargos é alto, e a disposição para participar de grupos de estudo também é alta. Em termos práticos, isso sugere que o ponto não é falta de vontade, mas sim organização e cultura de instrução com direcionamento do que ler, formatos preferidos (livro físico, palestras e tempo de estudo em Loja), e superação de barreiras de rotina/cansaço.
Percebeu-se, no grupo participante da pesquisa, que o hábito da leitura não é raro, e isto relativiza leituras simplistas do ensaio de Mackey. A soma de participantes que afirmam ler materiais maçônicos ao menos semanalmente atinge 70,0% (semanal, várias vezes por semana ou diariamente). À primeira vista, isso parece contrariar a imagem de uma Ordem amplamente indiferente ao estudo.
No entanto, quando se observa a intensidade e o tipo de leitura, surge uma nuance decisiva: 40,6% dedicam no máximo 30 minutos por semana (incluindo os que dedicam 0), e 43,3% leram 0 ou 1 livro maçônico completo nos últimos 12 meses. Além disso, os formatos mais citados são conteúdos online (57,8%) e artigos curtos (52,2%), superando revistas/periódicos (15,6%). Esse padrão sugere um cenário contemporâneo de leitura mais fragmentada, de acesso rápido, que facilita contato constante com temas maçônicos, mas nem sempre garante aprofundamento sistemático.
Essa diferença entre “ler” e “estudar” é justamente uma das tensões sugeridas por Mackey (embora em outro contexto histórico). O autor criticava a ideia de que a vivência em Loja e a social “substituiria” a investigação. No presente, a substituição pode ocorrer de maneira diferente, não apenas pelo abandono completo do estudo, mas por um consumo frequente e superficial de conteúdos, capaz de produzir sensação de familiaridade sem necessariamente produzir domínio. A evidência indireta dessa lacuna aparece quando se confronta a autopercepção com prontidão para instruir: embora 63,4% concordem (4–5) que entendem bem história e propósitos da Ordem, apenas 28,3% concordam (4–5) que se sentem preparados para conduzir uma instrução básica sem consultar material. Essa distância pode ser lida como humildade, mas também pode indicar uma percepção de que “entender” não significa, automaticamente, “ser capaz de ensinar com segurança”.
Aqui há um ponto fértil para debate: o que uma Loja deseja formar, “participantes bem-intencionados”, “consumidores de conteúdo”, ou “homens capazes de elaborar e transmitir instrução”? Não se espera que todo maçom seja erudito (o próprio Mackey reconhece limites individuais), porém é necessário discutir qual é o mínimo de instrução esperado para que a Maçonaria e não se reduza apenas às formalidades ritualísticas.
Mackey atacava a crença específica de que a iniciação produziria, por si só, um influxo de conhecimento capaz de dispensar estudo, como se a cerimônia tornasse o iniciado automaticamente “maçom erudito”. No questionário, essa crença foi testada de modo direto na afirmação de que “a iniciação e a frequência assídua às sessões, por si só, já entregam o essencial do conhecimento maçônico”.
O resultado não indica predominância de uma posição, mas mostra que o tema é divisivo: 40,0% discordam (1–2), 32,2% permanecem neutros (3) e 27,7% concordam (4–5). Há duas leituras possíveis e ambas são relevantes.
A primeira leitura é positiva, pois não há predominância de um “anti-intelectualismo” explícito; muitos discordam. A segunda leitura, mais provocativa, é que quase um terço concordar (e outro terço ficar no “depende”) já é suficiente para sustentar, na prática, uma cultura em que o estudo não é estruturado como prioridade. Em ambientes associativos, a cultura se molda não apenas pelos convictos, mas também pelos neutros: quando muitos ficam em “3”, a instituição tende a operar no modo “cada um faz como quer”, e aí o estudo costuma perder espaço para o que é mais imediato (rotina administrativa, demandas sociais, conveniências, agendas).
Nesse ponto, os dados de barreira ajudam a interpretar o “3” (neutro) como ambivalência genuína, e não como falta de opinião. A principal barreira apontada é cansaço/rotina (32,8%) e falta de tempo (25,6%). Isso combina com a hipótese de que muitos irmãos reconhecem o valor do estudo, mas não o fazem como prática regular.
Mackey, ao propor sua crítica, faz um apelo por uma Maçonaria que seja “lugar de pensamento especulativo e filosófico”, e não somente um “clube social”. Os dados aqui não permitem concluir que as Lojas “viraram clubes”, mas mostram que existe espaço real para evitar que a instrução fique dependente apenas de motivação individual. O ponto central não é moralizar, mas reconhecer que participação não garante aprendizagem, e que a aprendizagem precisa de estrutura.
O eixo mais sensível do ensaio de Mackey e o mais fácil de transformar em caricatura é a relação entre “não ler” e “querer cargos/graus”. No texto, ele descreve maçons que “dariam cinquenta dólares por uma condecoração, mas não cinquenta centavos por um livro”, sugerindo que a ambição por progressão pode coexistir com ignorância e gerar dano institucional. Evidentemente, o questionário não pretende “julgar” ambição, e nem a progressão deve ser tratada como patologia. Em muitas tradições, progressão pode representar compromisso, trabalho e serviço.
O que os dados permitem é uma discussão mais madura, pois o interesse por progredir é alto (68,3% concordam em ter grande interesse em progredir em graus/cargos), e, ao mesmo tempo, a disposição para grupos de estudo também é alta (66,7% concordam que participariam). Isso sugere que, para muitos, progressão e estudo não são vistos como rivais; ao contrário, podem ser complementares, desde que haja meios concretos.
O problema, então, não é “o desejo de progredir em graus”, mas o risco de progressão sem entendimento concreto dos símbolos e ensinamentos da Ordem, que é exatamente a crítica de Mackey. Como os dados apontam que 24,4% não leram nenhum livro no último ano e 28,9% leem raramente (mensal ou menos), uma pergunta inevitável que surge é: quais são as condições mínimas de instrução que deveriam acompanhar a progressão de graus? Uma das repostas possíveis seria viabilizar um sistema em que a progressão de graus fosse realmente uma coroação pelo aprendizado e não somente um procedimento ritualístico onde quem paga uma taxa e produz um texto sobre determinado tema já está, por isso mesmo, apto à progredir de grau.
Aqui entra a força da pergunta aberta (31), porque ela mostra que os próprios irmãos oferecem caminhos práticos para alinhar progressão e estudo, como a necessidade de “boa instrução em Loja”, “exemplo dos mestres”, “tempo de estudos mais participativo”, “indicações do que ler”, “apresentação de trabalhos” e “grupos de estudo”. Ou seja, a própria comunidade descreve soluções compatíveis com a vida real.
Quando se pergunta por barreira, a resposta principal não é “falta de interesse” (9,4%), mas “cansaço/rotina” (32,8%) e “falta de tempo” (25,6%). O item “falta de direcionamento do que ler” (13,9%) aparece como terceiro lugar, o que é particularmente relevante por ser um obstáculo que a Loja pode resolver com pouco custo.
Os itens de concordância reforçam que “falta de tempo” tem concordância relevante, enquanto “falta de dinheiro/acesso” tem concordância baixa (16,7% em 4–5), sugerindo que o problema não está majoritariamente em adquirir material, e sim em transformar o estudo em hábito viável.
Nesse sentido, uma Loja que deseje fortalecer instrução pode operar em duas frentes práticas (coerentes com os dados e com Mackey):
- Reduzir o “custo” de decisão fornecendo materiais para direcionamento de leitura;
- Melhorar o formato dos tempos de estudo com uma agenda que favoreça encontros curtos, previsíveis e participativos (debates, seminários, comissões)
Na pergunta aberta (31), as respostas convergiram para alguns eixos recorrentes:
- Muitos participantes citaram “aprimoramento pessoal e lapidação da pedra bruta” como principal motivo para estudar;
- Curiosidade e desejo de compreender símbolos, história e a finalidade da Ordem;
- Ambiente e qualidade da instrução na Loja como fator decisivo (sessões instigantes, debates, programas de instrução);
- Exemplo dos Mestres/irmãos mais experientes e mentoria prática;
- Direcionamento com indicação de obras e autores relevantes e trilhas por grau/tema;
- Críticas a distrações institucionais (politização, vaidade, foco excessivo em aspectos administrativos ou sociais), vistas como desmotivadoras ao estudo.
As respostas abertas mostraram um cenário onde o incentivo ao estudo não depende apenas do próprio indivíduo enquanto maçom, mas também de um ritmo, uma metodologia e exemplos, coisas em que as Lojas podem influenciar diretamente. Se analisarmos as respostas da questão 30, veremos que cerca de 53% dos participantes julgam que os tempos de estudo em suas Lojas são regulares ou insuficientes (1-3). Isto está alinhado com o que pôde ser observado dentre as respostas à pergunta aberta.
Isto é importante porque muitas respostas apontam que o ambiente é tão importante quanto a vontade individual para criar interesse em ler e estudar. A Loja pode instigar a curiosidade e dar direção oferecendo debates onde os Mestres deem exemplos, inclusive, apresentando trabalhos em sessões de grau 1 e 2 sobre temas básicos destes graus. Isso é compatível com a visão de Mackey de que a instrução se torna melhor conforme o nível cultural de seus membros. Nesse sentido, um Mestre terá muito mais bagagem para ministrar um tempo de estudos de qualidade sobre temas básicos do grau 1 do que o próprio Aprendiz. Por que não, então, o Mestre ministrar um tempo de estudos sobre a Pedra Bruta e depois os Aprendizes produzirem peças de arquitetura sobre o tema ao invés de fazer o inverso (que é o mais comum), onde os Aprendizes produzem os textos e apresentam em Loja para só então os mestres comentarem?
Conclusão
O levantamento por questionário indica que, entre maçons participantes do estudo, há elevada valorização declarada do conhecimento e disposição para iniciativas formativas coletivas, embora coexistam limitações práticas típicas da vida adulta, sobretudo cansaço/rotina e falta de tempo, que restringem a regularidade e a profundidade do estudo. Observou-se que a leitura maçônica é frequente para parte relevante do grupo (70,0% relatam ler ao menos semanalmente), mas com intensidade variável: 43,3% leram zero ou apenas uma obra maçônica completa no último ano, e o consumo se concentra em conteúdos online e textos curtos, o que pode favorecer contato recorrente com temas maçônicos sem garantir aprofundamento sistemático.
Em relação ao ensaio de Mackey, os dados sugerem aderência parcial. Não se confirma um cenário de ausência generalizada de leitura; entretanto, persistem sinais compatíveis com a preocupação do autor: parcela relevante concorda (ou não rejeita) a ideia de que iniciação e presença assídua seriam suficientes para o essencial do conhecimento, e o interesse por progressão em graus/cargos é elevado, coexistindo com barreiras objetivas ao estudo e com menor autopercepção de prontidão para conduzir instrução sem consulta a materiais. Nesse sentido, os resultados sustentam uma discussão onde parece decisivo reduzir obstáculos por meio de indicação do que ler, fortalecimento do tempo de instrução em Loja e estímulo ao estudo orientado e coletivo.
Como estudo baseado em respondentes voluntários e autoavaliações, reconhecem-se limites de representatividade e possíveis vieses de participação. Ainda assim, a consistência dos padrões observados, especialmente quanto a barreiras, formatos preferidos e a coexistência entre interesse de progressão e profundidade variável de leitura, oferece base suficiente para instrução e debate em Lojas, com foco em ações concretas que favoreçam o estudo como prática contínua.
Referências
MACKEY, Albert G. Reading Masons & Masons Who Do Not Read. Internet Archive, 1874. Disponível em: https://archive.org/details/MackeyAGReadingMasonsMasonsWhoDoNotRead1874. Acesso em: 25 fev. 2026.
MAÇONS que leem e maçons que não leem. DILEMA – Diretório de Instrução e Letras Maçônicas, 3 mar. 2026. Disponível em: https://dilema-diretorio.blogspot.com/2026/03/macons-que-leem-e-macons-que-nao-leem.html. Acesso em: 3 mar. 2026.
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